Autor: Professor Juliano Marques

  • A destruição do magistério como método: o relato de um professor esgotado

    Sou professor desde 1997. Dizer isso, para mim, nunca foi apenas informar uma data de ingresso em uma profissão, mas afirmar uma identidade, uma escolha de vida e, durante muito tempo, um motivo profundo de orgulho. Eu amo ser professor. Amo dar aula. Amo o meu conteúdo. Amo, de modo muito particular, ser professor de História, porque ensinar História nunca significou, para mim, apenas transmitir informações sobre o passado, mas oferecer instrumentos para que os estudantes compreendam o mundo em que vivem, percebam as estruturas que organizam a sociedade e possam, quem sabe, alargar os limites da própria experiência. Há uma dignidade muito grande em entrar em sala de aula todos os dias levando consigo a convicção de que o conhecimento ainda pode abrir frestas em meio à brutalidade do mundo. E talvez seja justamente por amar tanto essa profissão que a dor de exercê-la, hoje, seja tão funda, tão amarga e tão difícil de nomear.

    O que me abate não é simplesmente o cansaço rotineiro de quem trabalha muito. Não é o desconforto passageiro de um dia ruim. Não é a irritação comum que toda profissão traz. O que me atravessa é outra coisa, mais pesada, mais duradoura, mais corrosiva. É um desânimo que se acumula e que, pouco a pouco, vai deixando de ser desânimo para se tornar esgotamento. A cada dia sinto que o desrespeito aumenta. E aumenta de um modo que não é episódico, nem circunstancial, nem resolvível por meio de uma técnica pedagógica nova, de um curso de formação continuada ou de alguma fórmula motivacional vazia. Já se tentou de tudo. Já se tentou adaptar a aula, aproximar o conteúdo da realidade dos estudantes, flexibilizar a linguagem, tornar as atividades mais dinâmicas, ser mais próximo, ser mais acolhedor, ser mais compreensivo, ser mais rígido, impor limites, endurecer o tom, aliviar o clima, construir vínculos, ceder, insistir, reinventar. E, apesar de tudo isso, o que resta, muitas vezes, é a sensação brutal de que nada adianta, porque o professor, no fim das contas, será desrespeitado em sua essência, em sua dignidade, em sua alma.

    Há um tipo de violência que não deixa hematoma, mas vai destruindo o sujeito por dentro. E essa violência, na escola, se manifesta quando o professor deixa de ser visto como alguém que ocupa um lugar legítimo de mediação do conhecimento e passa a ser tratado como obstáculo, como figura descartável, como presença irrelevante ou, pior ainda, como alvo disponível para toda sorte de agressões cotidianas. Não falo apenas de xingamentos explícitos, embora eles existam. Falo também da indiferença sistemática, do deboche permanente, da recusa ostensiva em realizar qualquer atividade, do gesto calculado de tumultuar a aula, do prazer de desestabilizar o ambiente, da afronta repetida como forma de afirmação. E não há romantização pedagógica que consiga encobrir isso. Há, sim, estudantes que querem aprender, que respeitam, que tentam, que lutam contra todas as dificuldades para extrair da escola alguma possibilidade de futuro. Mas também há aqueles que não querem estar ali, que não querem aprender, que rejeitam a própria ideia de esforço, e que, por estarem obrigados a ocupar aquele espaço, transformam a vida de professores e dos colegas que desejam estudar em um verdadeiro inferno.

    Talvez uma das maiores hipocrisias do nosso tempo esteja na distância abissal entre o discurso oficial sobre a educação e a realidade concreta vivida por quem está no chão da escola. O discurso é bonito, impecável, moralmente bem acabado. Todos têm direito a uma educação de qualidade. Todos devem ser incluídos. A escola deve acolher a todos. A aprendizagem deve ser garantida. A permanência deve ser assegurada. Nada disso, em si, é desprezível; ao contrário, trata-se de princípios importantes, conquistados historicamente e que não deveriam ser tratados com leviandade. O problema começa quando esse discurso, ao invés de se traduzir em condições reais de trabalho, em estrutura adequada, em responsabilização das famílias, em apoio efetivo à gestão e em políticas sérias de aprendizagem, converte-se em retórica vazia e em instrumento de opressão sobre o professor.

    Porque, no final das contas, o que se exige é que o professor produza resultados em meio ao caos, suporte o insuportável, administre o inadmissível, aceite o inaceitável e, ao mesmo tempo, mantenha intacta a própria saúde emocional, como se fosse possível ensinar em qualquer circunstância, a qualquer custo, independentemente de toda deterioração objetiva e subjetiva do ambiente escolar. E, nesse processo, algo ainda mais grave vem sendo corroído: o próprio registro da realidade escolar.

    Quando falo da perda de dignidade do professor, não me refiro a um poder pequeno, mesquinho, autoritário, como se a questão estivesse em “dar bomba” por décimos ou em exercer uma autoridade arbitrária sobre os estudantes. Isso é uma caricatura que apenas desvia o foco do problema real. Não se trata de poder autocrata, estúpido e estéril. Trata-se de algo muito mais básico: o direito de registrar a realidade tal como ela é.

    Hoje, o professor é, muitas vezes, constrangido — direta ou indiretamente — a aprovar estudantes que não atingiram minimamente os critérios estabelecidos. Não estamos falando de 0,1 ponto. Estamos falando de estudantes que deixam de conquistar 10, 15, 20 pontos ao longo do ano letivo e que, ainda assim, precisam ser “ajustados” para que o sistema funcione. Somos pressionados a alterar notas, a reconfigurar resultados em um, dois ou até três bimestres, não por convicção pedagógica, mas para evitar o aumento de índices que comprometam a imagem da instituição ou da rede. O que está sendo vilipendiado aqui não é apenas a autoridade docente, mas o próprio fundamento do trabalho educativo: a relação entre esforço, avaliação e resultado.

    Quando o registro deixa de refletir a realidade, a escola entra em um estado de ficção institucionalizada. Todos sabem o que acontece, mas todos fingem que não sabem. O estudante sabe que não precisa se esforçar. O professor sabe que não pode exigir. A gestão sabe que não pode tensionar demais. E, nesse jogo, a verdade vai sendo apagada. E talvez não exista violência maior contra o professor do que essa: ser impedido de dizer, com honestidade, o que de fato está acontecendo.

    Se a lógica instituída é essa, os estudantes já perceberam. Perceberam que, no fundo, o sistema não sustenta aquilo que afirma. E, diante disso, a pergunta que se impõe é inevitável: o que levaria alguém a se preocupar em estudar, se o próprio sistema comunica, na prática, que o estudo deixou de ser condição para avançar?

    Essa contradição abre espaço para uma reflexão ainda mais incômoda, mas necessária: será que a escola deve ser, de fato, para todos, tal como se afirma de maneira quase dogmática? Ou será que há, nesse pressuposto, uma espécie de forçação de barra herdada de um ideal iluminista que acredita que todos desejam a mesma forma de “iluminação”? Porque a realidade concreta sugere algo mais complexo e mais duro de admitir: aprender exige querer aprender. Exige disposição. Exige entrega. E há aqueles que, simplesmente, não querem. E talvez não queiram.

    Isso não significa negar o direito à educação, mas significa questionar se a obrigatoriedade da presença, desvinculada de qualquer compromisso efetivo com a aprendizagem, não está produzindo um ambiente em que ninguém ganha, nem o professor, nem o estudante que quer aprender, nem o próprio sistema, porque, ao obrigar a permanência de quem não quer estar ali, a escola se torna um espaço de tensão permanente, onde o direito de alguns passa a ser sistematicamente violado pelo desinteresse ativo de outros.

    E, nesse cenário, os mais prejudicados continuam sendo justamente aqueles que querem aprender, porque são eles que perdem a aula para o barulho, para a indisciplina, para o tumulto, para a energia desviada o tempo todo na tentativa de conter aqueles que sabotam o espaço comum, sendo obrigados a assistir, muitas vezes em silêncio, à degradação de um ambiente que deveria, antes de tudo, protegê-los.

    Mas há uma dimensão ainda mais brutal desse processo que já não pode mais ser ignorada, porque ela ultrapassa o campo simbólico e entra diretamente no campo do adoecimento real, concreto e mensurável dos professores, uma vez que nunca na história recente deste país se aposentaram tantos docentes por doenças psiquiátricas e situacionais, não porque sejam frágeis, não porque não suportem a profissão, mas porque ultrapassaram seus próprios limites, e aqui é importante insistir nisso: não se trata de chegar ao limite, trata-se de ultrapassá-lo, de seguir além do ponto em que ainda seria possível se recompor.

    O que se vê hoje, em muitas escolas, são professores medicados, dopados por ansiolíticos, antidepressivos e estabilizadores de humor, com fala cadenciada, olhar vazio, movimentos lentos, tentando apenas atravessar o dia sem colapsar completamente, o que levanta uma pergunta que deveria constranger qualquer gestor público, qualquer formulador de política educacional e qualquer discurso oficial: o que a escola está fazendo com aqueles que deveriam ser seus principais ativos?

    E como se não bastasse o adoecimento silencioso, cresce também o número de casos de violência física contra professores, o que desmonta completamente a narrativa de que estamos lidando apenas com conflitos pontuais ou com dificuldades pedagógicas, pois há professores sendo chutados, esmurrados, atingidos por cadeiras, cuspidos, alvos de arremesso de objetos, desde bolinhas de papel até situações mais degradantes, além de episódios em que até mesmo gestos simples, como pedir para um aluno buscar água, se tornam potenciais situações de humilhação, com relatos de água adulterada, cuspida ou pior.

    E o mais perverso de tudo isso é que, mesmo diante de agressões que, em qualquer outro ambiente social, ensejariam uma resposta imediata e contundente, o professor é obrigado a silenciar, a engolir seco, a registrar, a chamar responsáveis que não comparecem, a se dirigir a delegacias onde perde horas para registrar ocorrências que, na prática, não produzem qualquer efeito concreto, para, no dia seguinte, retornar à sala de aula e se deparar com o mesmo estudante, agora munido de um olhar de deboche, sustentado pela certeza de que nada acontecerá, ao mesmo tempo em que o professor sabe que qualquer reação mais firme de sua parte pode desencadear um processo inverso, com exposição pública, acionamento de conselhos, corregedorias e até risco de exoneração.

    Diante de tudo isso, começa a se delinear uma hipótese que é tão perturbadora quanto plausível, na medida em que nos obriga a abandonar a ingenuidade: e se a destruição do magistério não for um efeito colateral, mas um método, uma estratégia, um projeto? Em uma sociedade marcada pela abundância de informação, destruir o professor é impedir que a informação se transforme em conhecimento, e impedir a transformação da informação em conhecimento é, em última instância, impedir a emancipação, sobretudo daqueles que não pertencem às elites endinheiradas, porque informação sem mediação não emancipa, informação sem crítica não liberta, informação sem professor é apenas ruído, e um povo submetido ao ruído é um povo mais facilmente controlável.

    Talvez por isso o sentimento de fracasso se infiltre com tanta força na alma do professor, não como um dado objetivo, mas como uma sensação persistente, corrosiva e injusta, porque, depois de tantos anos de dedicação, de tanto investimento afetivo e intelectual, de tanto esforço para preservar algum sentido no ato de ensinar, ver-se reduzido a alguém que apenas administra danos, que tenta atravessar o dia sem ser destruído e que luta para manter um mínimo de sanidade emocional é uma experiência profundamente devastadora.

    E é nesse ponto que a distinção entre cansaço e esgotamento deixa de ser retórica e passa a ser existencial, porque o cansaço se resolve com descanso, com pausa, com uma noite de sono, enquanto o esgotamento é outra coisa, é a sensação de não ter mais de onde tirar, de não conseguir recompor aquilo que foi drenado ao longo do tempo, de perceber que, no domingo à noite, a ansiedade já não é sobre o trabalho em si, mas sobre o que virá com ele, sobre a repetição de um ciclo de desrespeito, tensão e desgaste que parece não ter fim.

    Dá vontade de desistir, e essa talvez seja uma das confissões mais duras de fazer, porque ela não nasce do desprezo pela profissão, mas exatamente do contrário, nasce do amor por ela, do apego a algo que ainda faz sentido em essência, mas que, na prática, tem se tornado quase insustentável, o que torna tudo ainda mais doloroso, porque abandonar aquilo que se ama não é um gesto simples, não é uma decisão fria, é uma ruptura interna profunda.

    E, no entanto, permaneço, não porque esteja bem, não porque tenha encontrado alguma solução, não porque acredite que tudo vá melhorar de forma espontânea, mas porque há uma história construída aqui, porque há anos investidos, porque há uma identidade que não se desfaz com facilidade, porque há, em algum lugar, uma fidelidade ao que fui e ao que ainda acredito que a educação poderia ser.

    Permaneço, mas não iludido, não confortável, não inteiro, porque reconhecer o próprio esgotamento talvez seja, neste momento, o único gesto de honestidade possível diante de uma realidade que insiste em negar aquilo que todos os dias se impõe dentro das salas de aula, onde professores seguem de pé não porque estejam fortes, mas porque ainda não tiveram o direito de cair.

  • 2026: barbárie ou civilização!

    2026: barbárie ou civilização!

    É, no mínimo, perturbador observar que o mesmo Donald Trump que aparece em vídeos e declarações públicas carregadas de ódio, arrogância e desprezo pela dignidade humana seja alçado, por setores da direita brasileira e por parcelas significativas do evangelicalismo, à condição de defensor da liberdade, da família e dos chamados “bons costumes”, como se essas categorias pudessem ser sustentadas por alguém cuja trajetória política e pessoal está marcada por contradições tão profundas e, em muitos casos, por acusações gravíssimas.

    Não se trata aqui de mera divergência ideológica, mas de um problema ético incontornável: Trump carrega sob si denúncias que o associam a práticas de abuso e exploração, amplamente mencionadas nos chamados arquivos de Epstein, o que por si só deveria ser suficiente para, no mínimo, acender um alerta moral em qualquer grupo que reivindique valores cristãos como fundamento de sua atuação pública.

    Ainda mais grave é o fato de que esse mesmo líder já tenha defendido, em diferentes contextos, a eliminação ou desumanização de povos inteiros, referindo-se a seres humanos como “animais”, o que não encontra qualquer respaldo nas Escrituras que esses mesmos grupos dizem defender, já que o núcleo da mensagem cristã — dos Evangelhos às cartas paulinas — está assentado na dignidade intrínseca da pessoa humana, na compaixão e no reconhecimento do outro como semelhante.

    A contradição atinge um nível ainda mais inquietante quando se recorda que o próprio Trump já se colocou, direta ou indiretamente, em comparação com Jesus Cristo, o que, à luz do próprio texto bíblico, não é apenas teologicamente problemático, mas profundamente simbólico: nos Evangelhos (como em Mateus 24:5), nas cartas apostólicas (2 Tessalonicenses 2:3-4) e no Apocalipse (13:6-8), há advertências explícitas contra aqueles que se arrogam um lugar que não lhes pertence, sendo associados à figura do anticristo — não como uma caricatura mística, mas como expressão concreta da manipulação, do engano e da inversão de valores.

    Diante desse cenário, o debate político brasileiro deixa de ser uma simples disputa eleitoral e assume contornos históricos muito mais amplos, especialmente com a aproximação das eleições de 2026, nas quais o país se verá diante de uma encruzilhada clara: de um lado, a possibilidade de avançar em direção a um projeto de civilização baseado no respeito institucional, na democracia, na estabilidade econômica, na valorização da soberania e no reconhecimento internacional; de outro, a consolidação de um projeto que naturaliza a subserviência, que se curva a interesses estrangeiros e que transforma o Brasil em peça secundária no tabuleiro geopolítico, conduzido por atores políticos que, ao invés de defenderem o país, se colocam de forma submissa diante de potências externas, dispostos inclusive a negociar riquezas e autonomia em troca de alinhamento ideológico.

    A questão que se impõe, portanto, não é apenas política, mas profundamente moral e histórica: até que ponto se pode falar em defesa de valores quando esses mesmos valores são sistematicamente negados na prática, e qual é o preço, para uma sociedade inteira, de escolher entre a construção de um projeto soberano de nação ou a aceitação passiva de uma condição de dependência e submissão.

  • Só um desabafo

    Tenho 51 anos e, depois de 29 anos dentro da sala de aula, percebo que o cansaço que me acompanha já não pode ser explicado apenas pela rotina intensa de trabalho. Não se trata de um dia difícil, de uma semana pesada ou de um período específico do ano letivo; é um desgaste contínuo, que se acumula e se torna quase permanente, como se o corpo e a mente não conseguissem mais retornar a um estado real de descanso. Dou 11 aulas diárias, lido com mais de 300 alunos, transito por diferentes turmas, realidades e dinâmicas, e, ao mesmo tempo, preciso manter atenção constante, domínio de conteúdo, gestão de conflitos, controle disciplinar, sensibilidade pedagógica e cumprimento de uma série de exigências burocráticas que se multiplicam e que raramente consideram os limites humanos de quem executa esse trabalho.

    O esgotamento físico é evidente, mas o que mais pesa é o desgaste emocional que se instala de forma silenciosa. Ao longo do dia, não sou apenas professor; torno-me mediador de tensões, orientador, organizador, gestor de sala, alguém que tenta manter um ambiente minimamente funcional em condições muitas vezes adversas. Entre uma aula e outra, surgem registros a preencher, relatórios a organizar, sistemas que não funcionam adequadamente, cobranças que chegam de diferentes direções e a sensação constante de que sempre há algo pendente, algo incompleto, algo que exige atenção imediata. O tempo parece sempre insuficiente, e o intervalo entre as tarefas deixa de ser espaço de respiro para se tornar apenas um momento de transição entre uma exigência e outra.

    Com o passar dos anos, começo a perceber que esse acúmulo vai alterando também a forma como encaro o próprio trabalho. O entusiasmo que antes me levava a planejar aulas com mais cuidado, a buscar novas abordagens, a investir tempo em leituras e aprofundamentos, vai sendo substituído por uma lógica de sobrevivência cotidiana. Não porque eu tenha perdido o interesse pela educação ou pelos alunos, mas porque a energia necessária para sustentar esse nível de envolvimento já não está disponível como antes. Chego em casa cansado, muitas vezes sem disposição para estudar, para refletir sobre a prática pedagógica ou mesmo para realizar atividades pessoais que antes me davam prazer. O trabalho invade o tempo, invade o descanso e, aos poucos, invade também a motivação.

    Há também uma dimensão difícil de ignorar: a sensação de desvalorização. A responsabilidade do professor é enorme, o impacto social do trabalho é inegável, mas a remuneração não acompanha essa complexidade, e o reconhecimento simbólico parece cada vez mais escasso. A dedicação exigida é alta, mas as condições oferecidas não acompanham essa exigência, criando uma espécie de desequilíbrio permanente entre o que se entrega e o que se recebe. Esse descompasso não aparece de forma abrupta; ele vai se consolidando lentamente, alimentando um desânimo que não surge de um episódio isolado, mas de uma sequência de experiências que reforçam a percepção de que o esforço individual pouco altera o cenário geral.

    O resultado é um estado de exaustão que não se resolve apenas com descanso ocasional. Não é apenas o corpo que se cansa; é a mente que começa a funcionar em modo econômico, é a motivação que diminui, é a esperança de melhora que se torna cada vez mais distante. Continuo entrando em sala de aula, continuo explicando conteúdos, continuo tentando manter a qualidade possível, mas percebo que algo mudou. O trabalho que antes era também fonte de realização passa a ser, muitas vezes, uma tarefa a cumprir, um percurso a atravessar, um dia a vencer. Não deixo de reconhecer a importância do que faço, mas sinto que a estrutura em que esse trabalho se insere consome mais do que devolve, e essa constatação, repetida diariamente, vai alimentando um cansaço que já não é apenas momentâneo, mas estrutural, profundo e persistente.

  • Dez anos escrevendo contra o esquecimento

    Há dez anos, este espaço foi inaugurado sem qualquer pretensão de se tornar grande. Não nasceu como projeto de marketing, nem como vitrine profissional cuidadosamente desenhada. Surgiu, como tantas outras iniciativas intelectuais honestas, da necessidade — quase urgência — de organizar ideias, registrar inquietações e, sobretudo, não se calar diante de um mundo que insiste em naturalizar suas próprias contradições.

    Ao longo dessa década, o blog atravessou transformações pessoais, profissionais e históricas. Mudaram os contextos, os governos, os debates públicos e até mesmo as formas de produzir e consumir conhecimento. O que não mudou foi o compromisso fundamental que sustenta cada texto aqui publicado: o de pensar criticamente a realidade, recusando explicações fáceis, simplificações convenientes e narrativas que servem mais à manutenção do poder do que à compreensão do mundo.

    Escrever, nesse percurso, nunca foi apenas um exercício de exposição de ideias, mas um gesto político no sentido mais profundo do termo. Cada texto carrega a marca de uma escolha: a de não se omitir. Em tempos em que a informação é abundante, mas o pensamento crítico é cada vez mais raro, manter um espaço de reflexão consistente é, por si só, um ato de resistência.

    Este blog não é neutro, porque a própria História não é neutra. Ele se insere em um campo de disputa — de interpretações, de sentidos e de projetos de sociedade. E, nesse campo, escolheu não se alinhar à comodidade das leituras superficiais, mas à complexidade dos processos históricos, às tensões sociais e às estruturas que organizam — e frequentemente oprimem — a vida coletiva.

    Dez anos depois, este espaço permanece como registro de uma trajetória intelectual que não se pretende concluída. Ao contrário, reafirma-se como processo. Um processo de aprendizagem contínua, de revisão de certezas e de aprofundamento de perguntas. Porque, se há algo que a História ensina, é que nenhuma resposta é definitiva — e que o pensamento crítico é sempre um caminho, nunca um ponto de chegada.

    Que venham os próximos anos. Com mais rigor, mais inquietação e, sobretudo, com a mesma recusa em aceitar o mundo tal como ele se apresenta.

  • O BRASIL PASSADO A LIMPO

    Desde a fundação da República, em 1889, o Brasil já enfrentou diversos golpes de Estado. A própria proclamação da República foi, em si, um golpe. Em 1891, quando Deodoro da Fonseca renunciou, o marechal Floriano Peixoto assumiu a presidência desrespeitando a Constituição recém-promulgada. Em 1930, os militares depuseram Washington Luís, impediram a posse do presidente eleito Júlio Prestes e entregaram o poder a Getúlio Vargas, que, derrotado nas urnas, suspendeu a Constituição da República Velha e governou por decretos-leis até 1934.

    Três anos depois, em 1937, o capitão Olímpio Mourão Filho elaborou o falso Plano Cohen, atribuindo aos comunistas uma conspiração para tomada do poder. O pânico gerado serviu de pretexto para que Vargas aplicasse um auto-golpe, instaurando o Estado Novo, que perdurou até 1945, em regime autoritário. Em 1955, houve uma tentativa de golpe para impedir a posse de Juscelino Kubitschek. O marechal Henrique Lott interveio e garantiu a legalidade. Em nome da “pacificação”, os golpistas foram perdoados — entre eles, o mesmo Olímpio Mourão Filho.

    Em 1964, novamente sob liderança de Mourão Filho, agora general, tropas saíram de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro e depuseram o presidente constitucional João Goulart. Sob influência direta dos Estados Unidos, instaurou-se no país uma ditadura que produziu mortes, desaparecimentos, torturas e graves violações de direitos humanos. Em 1979, a chamada Lei da Anistia concedeu perdão tanto a perseguidos quanto a agentes do regime, perpetuando a impunidade.

    Agora, em 2025, o Brasil testemunhou mais uma tentativa de golpe, desta vez conduzida por uma organização criminosa liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. A tentativa fracassou. As instituições resistiram. Porém, como em episódios anteriores, não tardaram os pedidos de anistia, travestidos de “pacificação nacional”.

    A diferença é que, pela primeira vez, a resposta foi outra. O Supremo Tribunal Federal, em 11 de setembro de 2025, sob firme direção do ministro Alexandre de Moraes, condenou os líderes do movimento a mais de 27 anos de prisão. Todos os acusados tiveram amplo direito de defesa. Ninguém foi torturado, ninguém foi lançado ao mar. Manifestações em apoio aos criminosos foram permitidas, sem repressão violenta. O próprio líder da quadrilha chegou a cumprir prisão domiciliar, mesmo após tentar obstruir a Justiça. Altos oficiais militares e ex-ministros de Estado foram julgados e condenados.

    Pela primeira vez na história, militares e civis que tentaram impor sua vontade pela força foram responsabilizados judicialmente. O Brasil, enfim, começou a acertar as contas com seu passado de autoritarismo. É um marco histórico: a democracia brasileira resistiu, e o povo brasileiro reafirmou seu direito de viver em liberdade.

    Viva a democracia brasileira. Viva o povo brasileiro.

  • Tempo é Poder

    A quem interessa a destruição da escola pública? A quem serve o abandono, o descaso, a precarização programada das instituições que deveriam garantir às massas acesso àquilo que é, historicamente, o motor da libertação humana: o conhecimento? Não se trata de erro, de falha técnica ou de omissão ocasional. A destruição da escola pública é parte de um projeto de classe. Um projeto friamente arquitetado pelas elites econômicas que sempre souberam que o saber é um campo de disputa — e que o povo instruído, com tempo e consciência, se torna ingovernável, insubmisso, incompatível com a ordem da exploração.

    As elites nunca temeram o povo faminto — esse, elas disciplinam com cestas básicas e bala de borracha. O que as apavora de verdade é o povo que pensa. O povo que lê. O povo que se organiza. Por isso a escola precisa ser sabotada até se tornar um espaço de desistência. Por isso o professor precisa ser humilhado, a estrutura abandonada, a verba cortada, a biblioteca trancada, o aluno criminalizado. A escola precisa deixar de ser ponte para virar cova.

    Não é coincidência que mais de 90% das escolas públicas do país não ofereçam as condições mínimas de permanência e desenvolvimento aos seus estudantes. Não é acaso que professores sejam tratados como subcategoria funcional, que a carreira docente seja marcada por adoecimento físico e mental, que os currículos sejam rasgados por reformas tecnocráticas que nada dizem sobre a realidade do estudante pobre, periférico e racializado.

    A elite investe pesado em manter a escola pública irrelevante, porque sabe que uma escola viva é uma ameaça ao seu monopólio simbólico e material sobre tudo. E esse sucateamento não é um fenômeno isolado: ele caminha de mãos dadas com a destruição da saúde pública, da mobilidade urbana, da assistência social, da cultura e do próprio mundo do trabalho. Trata-se de uma engrenagem de extermínio em ritmo lento, que mantém o povo sempre um passo atrás da dignidade, sufocado entre a fome e a culpa, entre o cansaço e a obediência.

    Nesse cenário, é fundamental compreender o que está em jogo: o tempo. O tempo, hoje, é o novo nome do poder. O tempo livre, de qualidade, que permite existir para além da sobrevivência, tornou-se o mais precioso e mais desigual de todos os recursos sociais. Ter tempo virou sinônimo de status. Tempo é o novo luxo.

    Aquele que tem tempo para cuidar da saúde, para escolher o que come, para ler, para pensar, para descansar, para educar os filhos com atenção, para se dedicar à própria sensibilidade e espiritualidade, não vive como o restante da sociedade. E por que ele tem esse tempo? Porque alguém está fazendo tudo por ele.

    Porque o tempo de poucos é sustentado pela servidão cotidiana de muitos. O privilégio de quem vive com tempo só existe porque milhares trabalham para que ele não precise trabalhar. O lazer da elite é construído sobre o esgotamento do povo. O tempo livre virou marca de classe porque é a evidência mais cruel de que existe uma multidão inteira servindo para que uma minoria não precise se levantar da cadeira.

    O trabalhador, por sua vez, não tem tempo. Ele é forçado a gastar seus dias correndo atrás da própria sobrevivência, sem margem de escolha, consumido por jornadas extenuantes, transporte precário, dívidas impagáveis, violência urbana, doenças não tratadas e ausência completa de perspectiva. E o mais perverso é que ele ainda é convencido de que essa vida miserável é culpa sua.

    Dizem que ele não se esforçou, que não estudou o suficiente, que não soube aproveitar as oportunidades. Inventaram a mentira da meritocracia para que ele não questione o sistema, mas a si mesmo. E, cansado demais para reagir, ele agradece pelas migalhas. Carrega o mundo nas costas e ainda se culpa por tropeçar.

    Mas a verdade — e aqui reside a faísca da revolta — é que tudo o que existe neste mundo foi produzido por esse mesmo povo que não tem tempo nem reconhecimento. Toda a estrutura que permite à elite viver com conforto e tranquilidade foi construída com o suor, o sangue e o sacrifício de quem nunca teve o direito de parar.

    Toda riqueza acumulada, todo luxo, todo patrimônio, toda herança, todo conhecimento aplicado, tudo, absolutamente tudo, é fruto do trabalho humano. E quem trabalha é o povo. Quem limpa as cidades, planta a comida, cuida das crianças, dirige os ônibus, constrói os prédios, costura as roupas, prepara as refeições, carrega os sacos de cimento, dá aula nas escolas, atende nos hospitais — é o povo.

    A elite não produz absolutamente nada. Ela apenas vive do que é extraído do corpo e do tempo dos outros. O dia em que o povo compreender, de forma clara, definitiva e organizada, que é ele quem produz tudo e todas as coisas — e que tudo e todas as coisas lhe pertencem por direito — esse sistema apodrecido começará a ruir.

    O dia em que o povo olhar para os prédios, os carros, os alimentos, os serviços, os livros, a energia elétrica, a ciência, a arte, o saber, e perceber que tudo aquilo existe porque alguém como ele se sacrificou, esse será o dia da virada. Porque quem produz tem o direito de reivindicar. E se o povo reivindicar o que é seu — o tempo, o saber, a dignidade, o mundo — nada, absolutamente nada, permanecerá como está.

    É por isso que a escola pública precisa ser destruída. Porque uma escola viva, crítica, popular, enraizada na realidade, com professores valorizados e alunos respeitados, é a primeira trincheira onde essa consciência começa a germinar.

    A elite sabe que uma escola que ensina o povo a pensar é uma bomba-relógio contra seus privilégios. Porque o conhecimento desperta a consciência, e a consciência exige tempo. Uma escola estruturada não apenas educa, ela devolve ao povo aquilo que lhe foi roubado: a capacidade de compreender sua história, de reescrevê-la, de romper com a ordem imposta.

    Quando negam livros, merenda, salário digno, permanência estudantil, respeito pedagógico e segurança institucional, não estão apenas cortando verbas — estão assassinando, dia após dia, a possibilidade de o povo se levantar. A destruição da escola pública é a tentativa de impedir que o povo recupere seu tempo.

    Porque com tempo, ele pensa. E se pensa, ele age. E se age, toma o que é seu. O tempo que hoje é da elite — tempo para criar, para planejar, para decidir, para viver — voltará a ser do povo no dia em que ele entender que é ele quem produz tudo. E nesse dia, não haverá blindagem, sobrenome, diploma, mercado ou herança que sustente a Casa Grande.

  • O Efeito Dunning-Kruger: Uma Análise Aprofundada da Ilusão de Competência e o Caminho para a Sabedoria


    Resumo: Este texto acadêmico explora o Efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo que demonstra como indivíduos com baixa competência em uma área tendem a superestimar significativamente suas habilidades, enquanto os mais competentes frequentemente subestimam as suas. Através da contextualização histórica, dos experimentos que o validaram e de suas manifestações no cotidiano, busca-se compreender a natureza da ignorância atrevida e o valor da modéstia epistêmica como pilares para o desenvolvimento da metacognição e da verdadeira inteligência.

    1. Introdução: A Natureza Enganosa da Autopercepção – O Vilão Invisível

    É uma crença comum e reconfortante pensar que somos proficientes em alguma coisa, talvez até melhores do que a maioria das pessoas. No entanto, o Efeito Dunning-Kruger revela uma verdade desconfortável: é provável que estejamos enganados sobre o quão bons ou ruins somos em muitas áreas de nossas vidas, e podemos estar nos superestimando ou subestimando. O mais inquietante é que as áreas em que essa autopercepção é mais falha são, paradoxalmente, aquelas em que temos mais certeza.

    O Efeito Dunning-Kruger é um fenômeno psicológico que demonstra que as pessoas menos competentes são, precisamente, as mais confiantes. Isso ocorre porque lhes faltam as próprias ferramentas ou habilidades necessárias para perceber o quanto não sabem. O vídeo o descreve como um “inimigo invisível que se esconde dentro de nós”, um “vilão que não chega com gritos nem armas”, mas que “se instala silencioso dentro da sua mente e, o mais perigoso, ele faz você acreditar que é o herói da história”. Essa “ignorância não é aquela que diz: ‘Eu não sei’”, mas sim “a que grita: ‘eu tenho certeza’”. É uma “ignorância que se fantasia de conhecimento, que confunde confiança com competência” e que “enxerga dúvida como fraqueza”. Essencialmente, quanto menos se sabe, mais se acredita saber, pois para reconhecer a própria incompetência, seria preciso uma habilidade que o indivíduo ainda não possui, “é como tentar ver o mundo com os olhos vendados e jurar que ele é escuro só porque você não enxerga”.

    2. Origem e Fundamentação Empírica: A Fascinante História de MacArthur Wheeler e os Estudos de Dunning e Kruger

    A notoriedade do Efeito Dunning-Kruger foi impulsionada por um caso real surpreendente: o de MacArthur Wheeler. Este homem invadiu dois bancos em plena luz do dia, sem máscara ou disfarce, sorrindo para as câmeras de segurança, convicto de que não seria reconhecido. Sua reação à prisão, horas depois, não foi de violência, mas de genuína surpresa, exclamando: “Mas eu usei o suco de limão!”. Wheeler acreditava, com total certeza, que esfregar suco de limão no rosto o tornaria invisível às câmeras de segurança. Essa crença absurda vinha da sua compreensão equivocada de que, se o limão podia ser usado como tinta invisível em cartas antigas, sua lógica se aplicaria também à vigilância eletrônica. Ele inclusive realizou um teste com uma câmera antes dos crimes, mas a polícia suspeita que ele pode ter interpretado mal os resultados devido a um filme estragado, má utilização da câmera ou mudança de posicionamento. O caso de Wheeler não foi apenas um crime mal planejado, mas um “símbolo de um fenômeno humano universal”.

    Essa história real despertou a curiosidade de David Dunning, professor de psicologia social na Universidade Cornell, que se viu obcecado por uma única pergunta: “Como alguém pode estar tão errado e ainda assim tão certo de que está certo?”. Dunning uniu-se ao seu aluno Justin Kruger, e juntos formularam uma hipótese ousada: que “a incompetência severa não apenas nos impede de acertar, ela também nos cega para o próprio erro”.

    Para testar essa hipótese, eles recrutaram participantes e os submeteram a testes em diversas áreas, como humor, lógica e gramática. Após cada teste, os voluntários foram solicitados a avaliar sua própria performance e a estimar como haviam se saído em comparação aos demais. Os resultados foram alarmantes e chocantes:

    • Os participantes com os piores desempenhos foram aqueles que exibiram as maiores autoconfianças. Eles não apenas erravam mais, mas também acreditavam que haviam se saído “muito bem”.
    • Em contrapartida, os melhores participantes tendiam a subestimar suas próprias respostas, acreditando que os outros também haviam acertado tanto quanto eles. Em outras palavras, “quanto mais sabiam, mais humildes se tornavam e quanto menos sabiam, mais certos estavam de suas verdades”.

    Essa confirmação empírica ressoou com a máxima do filósofo Berton Russell, que já afirmava décadas antes: “o problema da humanidade é que os estúpidos estão cheios de certezas enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas”. A “ignorância atrevida”, como o vídeo a descreve, é o “vilão invisível da nossa era” e, tragicamente, quanto mais forte ela se torna, mais ela silencia “a voz da dúvida”, que “poderia nos salvar”.

    3. O Modelo Gráfico do Efeito Dunning-Kruger: A Jornada do Conhecimento

    O Efeito Dunning-Kruger é visualizado em um gráfico que mapeia a relação entre o conhecimento real (eixo horizontal) e a percepção de conhecimento ou confiança (eixo vertical). Esse modelo descreve uma jornada em que a autoconfiança e a competência nem sempre caminham juntas.

    • O Monte da Estupidez (Pico da Confiança Ilusória): No início da curva, quando se tem muito pouco conhecimento sobre um assunto, a confiança do indivíduo dispara. Este ponto é o “monte da estupidez”, onde a “ignorância é tão profunda que se confunde com iluminação”. É neste pico que nascem os “especialistas de WhatsApp”, os “autodeclarados gênios do churrasco”, ou aqueles que, após lerem uma manchete ou assistir a um documentário, se consideram especialistas em epidemiologia ou economia. Nesse estágio, a confiança cresce “mais rápido que o conhecimento”, resultando em um “ego inflado flutuando sobre um solo vazio”.
    • O Vale da Desesperança: À medida que o indivíduo continua a estudar e aprofunda seu conhecimento, ele começa a perceber a verdadeira complexidade do assunto. É nesse ponto que a autoconfiança despenca, e o indivíduo “cai no vale da desesperança”. Este é o “momento em que você começa a ver o tamanho real daquilo que não sabe”. É uma experiência “dolorosa, humilhante até”, mas é crucial, pois marca o “início da sabedoria”.
    • A Rampa da Iluminação: A partir do Vale da Desesperança, inicia-se uma nova ascensão, mais lenta e mais genuína: a “rampa da iluminação”. A confiança começa a retornar, mas agora ela é “baseada em conhecimento verdadeiro”. O indivíduo começa a dominar a matéria, mas “nunca mais com a arrogância do início”, pois agora ele “sabe o que não sabe, e isso muda tudo”. O grande problema, como destaca o vídeo, não é estar no “monte” ou no “vale”, mas sim “achar que já chegou ao topo quando ainda está na base da montanha”. E, de forma ainda mais perigosa, “quanto mais alto você grita lá de cima, menos ouve os que estão tentando te alertar aqui debaixo”.

    4. Manifestações Sociais e o Paradoxo da Era da Informação: O Barulho da Ignorância Atrevida

    O Efeito Dunning-Kruger se manifesta de forma generalizada no nosso dia a dia. É comum observar em reuniões, debates ou até mesmo em jantares em família que “quem fala mais alto nem sempre é quem tem mais a dizer”. As salas se enchem de opiniões e certezas, mas frequentemente “aquele que levanta a voz com convicção é o que menos estudou, menos refletiu, menos duvidou”. Isso não é uma coincidência, é o Efeito Dunning-Kruger em ação. A pessoa que sabe pouco não tem a capacidade de perceber o quão pouco sabe, justamente porque lhe falta a habilidade de reconhecer sua própria ignorância e seus erros. Por isso, ela acredita que está certa e que os outros é que não compreendem. Enquanto isso, “os mais preparados hesitam, pesam cada palavra, sabem que o mundo é complexo demais para respostas fáceis e por isso se calam”.

    Na prática, isso leva a uma situação em que, muitas vezes, “somos guiados pelos mais confiantes, não pelos mais competentes”, seguindo conselhos de “quem grita mais, não de quem pensa melhor”. Assim, a “ignorância atrevida domina espaços que deveriam ser ocupados pela sabedoria discreta”.

    Nas redes sociais e na internet, esse fenômeno é amplificado de maneira alarmante. A lógica dos algoritmos favorece “quem tem certezas, não quem tem perguntas”, impulsionando o “extremo, o absoluto, o simplificado”, em detrimento do “estudo, da dúvida ou do cuidado”. O resultado é uma cacofonia de “milhões de vozes, mas poucas ideias; muito ruído, pouca escuta”, culminando em uma “perigosa ilusão: a de que saber é apenas parecer que sabe”. Vivemos um paradoxo: apesar do acesso sem precedentes à informação, nunca estivemos “tão vulneráveis à desinformação”. Isso porque “o excesso de dados sem estrutura, sem profundidade gera apenas uma ilusão de saber”. É a era do “li um artigo e virei especialista”, do “vi um vídeo e agora ensino”, ou do “não confio na ciência, confio no meu instinto”.

    5. A Outra Face: A Modéstia Epistêmica dos Especialistas e o Perigo do Falso Consenso

    Enquanto os ignorantes se agarram à certeza “como quem segura uma boia em alto mar”, os verdadeiros especialistas “vivem cercados de perguntas”. Para eles, a dúvida não é uma fraqueza, mas um “farol” que ilumina a vasta extensão do que ainda não sabem. Há um preço a pagar por essa clareza: quanto mais se sabe, mais se percebe o tamanho do oceano de conhecimento, e “quanto mais você sabe, mais entende o quanto ainda falta aprender”. É “como acender uma lanterna no escuro e perceber que a escuridão vai muito além do que você imaginava”. É por isso que os sábios duvidam de si mesmos: eles já exploraram o suficiente para compreender que “o mundo não cabe em fórmulas prontas” e que “cada certeza vem acompanhada de uma série de talvez”.

    Este fenômeno é denominado “modéstia epistêmica”: a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento. Contudo, no mundo atual, essa virtude é frequentemente “vista como hesitação”, e para muitos, “hesitar é perder espaço”. Enquanto isso, aqueles que estão no “topo da ignorância, lá no Monte da Estupidez, continuam firmes dando palestras, formando opiniões sem saber que não sabem”.

    Adicionalmente, os profissionais brilhantes frequentemente permanecem calados porque subestimam o próprio valor. Eles acham que sua competência é comum e que o que sabem, “todo mundo sabe”. Este viés é conhecido como “falso consenso”. O silêncio dos mais preparados é perigoso, pois “abre espaço para o barulho da superficialidade, para a arrogância de quem nunca olhou fundo”.

    6. Antídoto: O Desenvolvimento da Metacognição – O Caminho da Sabedoria Genuína

    Existe um caminho viável entre a “arrogância da ignorância e o silêncio da sabedoria”, e ele começa dentro de nós mesmos. O ponto de partida é um momento “raro e transformador” na vida de uma pessoa: aquele em que ela percebe que não sabe tanto quanto pensava. Chegar a esse ponto exige “coragem para olhar no espelho e enxergar as rachaduras do próprio saber”.

    Este momento é o início da metacognição: a capacidade de “pensar sobre o próprio pensamento”. Significa ser capaz de “observar suas certezas com desconfiança” e de se perguntar: “Será que estou vendo tudo ou apenas o que quero ver?”. A metacognição atua como o “antídoto natural ao Efeito Dunning-Kruger”. Ela não impede que cometamos erros, mas nos concede a oportunidade de “perceber o erro, de ajustar o curso, de aprender”.

    A cultura da metacognição pode ser promovida através de quatro pilares essenciais:

    • Humildade Ativa: Não é suficiente apenas saber que somos falhos; é fundamental “querer aprender, buscar feedbacks, escutar mais do que falar”. É uma busca proativa pelo conhecimento e pela correção.
    • Curiosidade Verdadeira: Não se trata de uma curiosidade que busca apenas confirmar crenças pré-existentes, mas aquela que “se encanta com o desconhecido”. É a curiosidade que pergunta “não para vencer um debate, mas para entender melhor”.
    • Exposição à Diferença: É perigoso e confortável “cercar-se apenas de vozes que pensam igual a nós”. O “confronto respeitoso com outras visões é o que expande a consciência” e desafia as zonas de conforto intelectuais.
    • Tempo de Silêncio: O mundo atual “grita por respostas rápidas”, mas a verdadeira sabedoria “exige pausa”, exige “o espaço onde a dúvida possa respirar”. A reflexão profunda necessita de um ambiente sem ruído e sem a pressão por imediatismo.

    A ciência demonstra que, quando uma pessoa incompetente começa a aprender de verdade, ela não apenas melhora sua performance, mas também “começa a reconhecer suas falhas”. Ela “deixa de ser vítima do efeito Dunning-Kruger” não porque passa a saber tudo, mas porque finalmente compreende que “saber é um caminho, não um destino”. É nesse ponto que emerge a verdadeira inteligência, que “não precisa de palco nem de aplauso”, e que é capaz de dizer com serenidade: “Eu não sei, mas quero saber”.

    7. Conclusão

    O Efeito Dunning-Kruger é um lembrete vívido da complexidade da autopercepção humana e do perigo intrínseco à ignorância não reconhecida. Ao desvendar a ilusão de competência e o paradoxo da sabedoria, este estudo sublinha a urgência de cultivar a metacognição. Reconhecer a própria falibilidade com coragem, buscar o conhecimento com humildade ativa, nutrir uma curiosidade genuína, expor-se a diferentes perspectivas e valorizar o silêncio para a dúvida são passos cruciais para desarmar a “ignorância atrevida”. Ao trilhar esse caminho, pavimentamos a rota para um entendimento mais profundo de nós mesmos e do mundo, conduzindo a uma sociedade mais verdadeiramente informada e sábia.


  • Doentes no Púlpito, Venenos no Banco: Como Pastores Enfermos Estão Matando Suas Igrejas

    A igreja pode sobreviver à perseguição externa, mas não sobrevive à doença espiritual de seus líderes. Quando pastores adoecem espiritualmente, silenciosamente o veneno escorre dos púlpitos até as fileiras mais afastadas, contaminando toda a comunidade. O resultado? Uma igreja que já não é igreja, mas um organismo tóxico, que destrói vidas em vez de salvá-las.

    A Bíblia adverte sem rodeios:

    “Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto!” (Jeremias 23:1).

    Pastores doentes não apenas perdem a direção espiritual, mas roubam a capacidade da igreja de perceber o próprio mal. Comunidades adoecidas não se reconhecem como tais, estão presas num ciclo cruel de autoengano, celebrando números, aplaudindo cargos e adorando cifras. Tornam-se cegas ao sofrimento real daqueles que não têm o que oferecer.

    Dietrich Bonhoeffer denunciou com coragem pastores que trocaram a cruz por cargos e dinheiro, declarando que “uma comunidade que depende de recursos humanos, poder ou influência não vive pela graça, mas por interesses. Ela troca o amor fraterno pelo amor à aparência e à posição social” (Vida em Comunhão, Ed. Sinodal, 2003, p. 37). Eis o retrato exato da igreja doente, onde líderes preferem as “ovelhas gordas” e ignoram as que clamam, feridas e abatidas.

    O perigo é sutil e venenoso: igrejas assim veem o irmão rico como resposta de Deus, enquanto o pobre é tratado como fardo pesado demais para se carregar. Mas o apóstolo Tiago já desmascarou essa farsa séculos atrás: “Vocês honram o rico e desprezam o pobre. Não é justamente o rico quem oprime vocês?” (Tiago 2:6). Igrejas contaminadas têm olhos para anéis de ouro, mas não têm coração para lágrimas silenciosas.

    Charles Spurgeon, o príncipe dos pastores, não poupou palavras ao alertar sobre líderes assim: “nada é mais desprezível do que um pastor que prega por lucro e reputação. Tais pastores são lobos vestidos de lã, cuidam não das almas, mas dos bolsos e das próprias ambições” (Lições aos Meus Alunos, Editora PES, 2007, p. 52). Quando a igreja confunde pastores com empresários, a fé se torna produto e o Evangelho, negócio.

    O teólogo reformado suíço, Karl Barth (1886-1968), advertiu que “quando a igreja mede seu sucesso por números, influência e status, ela perdeu completamente a essência do Evangelho, que é serviço, humildade e cruz” (Dogmática Eclesial, Ed. Sinodal, 2003, p. 205). Comunidades lideradas por pastores doentes não percebem que se transformaram em um mercado espiritual, onde a ovelha sem recursos financeiros é excluída, abandonada à própria sorte.

    Santo Agostinho, no quarto século, já alertava: “muitos buscam Jesus não pelo próprio Jesus, mas pelos benefícios terrenos que julgam obter por meio Dele. Isso não é fé; é comércio espiritual” (Comentário ao Evangelho de João, Ed. Paulus, 1994, Tratado XXV, §10). Esse comércio é justamente o veneno mortal que mata silenciosamente a saúde espiritual da igreja.

    No Brasil contemporâneo, o pastor e teólogo Augusto Nicodemus é contundente: “um ministério pastoral centrado no poder e no dinheiro destrói o rebanho de Cristo. Quando o púlpito vira plataforma de negócios, o Espírito Santo se retira e a comunidade adoece gravemente” (O Que Estão Fazendo com a Igreja, Ed. Mundo Cristão, 2008, p. 87). Essa é uma verdade incômoda, mas vital, que muitas igrejas insistem em não ouvir.

    Scott McKnight e Laura Barringer, autores de Uma Igreja Tov, fazem um alerta contundente e atual: “comunidades tóxicas celebram líderes pelo carisma, influência ou riqueza que possuem, negligenciando caráter, humildade e amor genuíno. Uma igreja assim perde a capacidade de discernir o mal dentro dela mesma, criando um ambiente espiritualmente abusivo e profundamente doente” (Uma Igreja Tov, Ed. Thomas Nelson, 2022, p. 68). Aqui está o retrato claro da tragédia que tem tomado conta de muitas igrejas brasileiras e globais: líderes doentes criam comunidades doentes.

    Igrejas doentes não cuidam das feridas, apenas as escondem sob vestes bonitas e brilhantes e eventos grandiosos. Não têm mais lágrimas pelos perdidos, nem interesse pelos humildes. Tornam-se incapazes de ouvir o grito silencioso daqueles que precisam desesperadamente do amor genuíno de Cristo. Preferem aplausos humanos à aprovação divina, dinheiro rápido à bênção eterna, e influência política ao serviço humilde.

    Mas há uma saída: o caminho da cura passa pelo arrependimento verdadeiro e humilde, pelo retorno radical ao evangelho simples de Cristo. Passa por líderes que abandonam a lógica do mercado e abraçam a lógica da cruz, que deixam de olhar o tamanho da carteira e começam a enxergar a profundidade das almas.

    É hora de despertar! Precisamos urgentemente abrir os olhos e reconhecer o que está acontecendo em nossas igrejas. Precisamos voltar ao Evangelho de Cristo, não ao evangelho do dinheiro e da fama. Precisamos de pastores saudáveis e curados para comunidades espiritualmente curadas.

    Até quando vamos tolerar o veneno no púlpito? Até quando fingiremos que tudo está bem enquanto a igreja morre lentamente, sufocada pela doença dos seus líderes?

    A decisão está diante de nós: ou somos parte da cura, ou somos cúmplices da doença.

    Escolha hoje quem você quer ser.

  • Quando o rebanho vira recurso: o escândalo das relações utilitaristas na igreja

    A ideia de Cristo quando esteve neste mundo era criar uma comunidade viva, onde cada pessoa é compreendida na sua individualidade, amada, cuidada e integrada como parte do corpo de Cristo, que é perfeito e saudável (1 Coríntios 12:27). Jesus deixou claro que o modelo de liderança no Seu Reino não é o modelo do mundo, onde os poderosos dominam e exploram os que não tem poder, os mais fracos e os excluídos, mas sim o serviço, o cuidado e a entrega (Marcos 10:42-45).

    Porém, o que temos presenciado, nos dias de hoje, em muitas igrejas é o oposto do modelo de Cristo: pastores que tratam as ovelhas como ferramentas para algum projeto pessoal de poder, medindo seu valor pelo potencial financeiro, status social ou influência política. Aqueles que sofrem, que não contribuem com altos valores são excluídos, não têm influência e, consequentemente, são abandonados, invisibilizados, descartados como peças quebradas de uma engrenagem. Mas quando se trata de alguém com recursos, prestígio ou posição, esses mesmos líderes se mobilizam, visitam, oferecem cargos, colocam tapetes vermelhos e, por vezes, assim que entram na Igreja já são cooptados pela máquina e já é colocado como líder de ministérios, sem raiz, sem discipulado, sem vida comunitária verdadeira, sem história. 

    Essa é a marca do mercenário que Jesus denunciou: “O mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge; […] foge porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas” (João 10:12-13). Quando um pastor negligencia os fracos, os quebrados e os pobres, ele expõe que seu verdadeiro senhor não é Cristo, mas Mamom (Mateus 6:24).

    O teólogo Dietrich Bonhoeffer já alertava contra esse tipo de liderança utilitarista, que transforma a graça em mercadoria: “A graça barata é a graça sem discipulado, sem cruz, sem Jesus Cristo vivo e encarnado” (Discipulado, 1937). Em outras palavras, igrejas que oferecem posições em troca de dízimos e contribuições altas não são comunidades do Reino, mas mercados religiosos a serviço de interesses humanos.

    O livro Uma Igreja Tov (Scot McKnight e Laura Barringer) denuncia com coragem essa perversão, mostrando como comunidades adoecidas colocam a reputação, o dinheiro e os números acima das pessoas e da verdade. Eles afirmam: “Quando as pessoas deixam de importar mais do que as estruturas e os números, a igreja deixou de ser boa e se tornou um ambiente tóxico” 

    Esse modelo mercantilista é não apenas anticristão, mas profundamente diabólico, pois troca o cuidado pastoral pelo lucro, a comunhão pelo clientelismo, e a santidade pelo prestígio. Jesus não veio para construir impérios religiosos, mas para formar uma comunidade de discípulos que carregam a cruz, não que compram o altar.

    A advertência de Tiago ecoa de maneira cortante: “Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tiago 2:1). Quando a igreja faz acepção, priorizando o rico e desprezando o pobre, ela trai o Evangelho, ela trai Cristo. 

    É hora de a igreja se arrepender dessa idolatria travestida de espiritualidade, de derrubar os altares construídos ao redor de cifras e cargos, e voltar ao modelo simples, profundo e radical do Bom Pastor, que conhece cada ovelha pelo nome (João 10:3), e não pelo valor do dízimo.

    Porque onde o pastor abandona suas ovelhas e corre atrás dos poderosos, já não há mais igreja. Há apenas um negócio com fachada cristã. 

  • Escola Sem Partido: a quem interessa?

    Há muito se apregoa a ideia de que, nas escolas, os estudantes são doutrinados por professores marxistas que desejam criar um exército de militantes comunistas que irão liderar uma revolução e instalar uma sociedade baseada nos princípios do filósofo Karl Marx. Bem, isso não passa de uma falácia, pois, em defesa de uma escola “desideologizada”, apregoa-se exatamente uma ideologia da negação da própria ideologia. Algo impossível, pois os seres humanos são, por natureza, seres políticos e, portanto, carregados de ideologias, independentemente de quais sejam.

    Contudo, o que a realidade nos mostra não corrobora esse discurso. Se isso fosse verdade, os partidos de esquerda de orientação marxista teriam votações arrasadoras nas eleições gerais e municipais. Não é isso que estamos assistindo. Pelo contrário, assistimos ao surgimento de uma juventude reacionária, defensora de ideias que não viveram e, por isso, o reacionarismo não tem lógica. É incompreensível ver jovens defenderem um conjunto de ideias que, em última análise, irá oprimi-los.

    A quem interessa uma “Escola Sem Partido” (ESP)? Uma escola sem partido interessa exatamente a esse grupo da sociedade que quer perpetuar seus privilégios, abdicando de oferecer uma educação que promova a crítica científica e a produção de um conhecimento que traga verdadeira liberdade de pensamento e de escolha. Não há nada de errado em escolher ser reacionário, conservador, progressista ou revolucionário, mas é necessário compreender os motivos pelos quais se faz a escolha ideológica.

    Uma Escola Sem Partido interessa a uma elite acostumada a dar ordens e a ter pessoas que as sigam obedientes e caladas, concordando com tudo. Interessa a uma elite que não aceita que as camadas populares tenham acesso a um conhecimento crítico e libertador, capaz de capacitar os jovens a fazerem escolhas conscientes, independentemente da matiz ideológica.

    Na verdade, a ESP interessa àqueles que temem o questionamento das estruturas sociais vigentes. São os mesmos que não aceitam a crítica ao modelo de produção capitalista, à divisão de classes e às questões relacionadas à orientação sexual. Deslegitimam qualquer luta por inclusão, igualdade, respeito e tolerância, como as pautas LGBTQIA+, mulheres, negros e pessoas com deficiência. Para eles, a mordaça é uma ferramenta essencial para manter a ordem e evitar que essas discussões cheguem ao ambiente escolar, onde o pensamento crítico pode florescer. Antes de conservadores, são reacionários.

    É notório que essa pauta surge em um momento em que os pobres passaram a acessar o ensino superior com mais facilidade, seja com políticas de cotas, bolsas e financiamentos estudantis, como o PROUNI e o FIES, ou pela oferta de mais vagas com a abertura de universidades públicas. O próprio ENEM, por si só, democratiza esse acesso, na medida em que todas as universidades federais utilizam esse sistema de avaliação para distribuir vagas. Assim, o estudante não precisa mais pagar vestibulares de diversas universidades, além de custear transporte e hospedagem para realizar as provas em localidades distantes de sua moradia. O acesso do pobre ao ensino superior acendeu um alerta vermelho para a elite acostumada a ver esse ambiente frequentado apenas pelos filhos das classes dominantes. A universidade brasileira está se tornando um local de diversidade e debate amplo de ideias. E isso incomoda: o debate de ideias.

    Então, qual a saída que essa elite encontrou? O sucateamento da educação básica. A defesa de uma Escola Sem Partido é o primeiro passo para a destruição de uma escola centrada no pensamento crítico e libertador. Verdade seja dita: há muito tempo a escola não tem sido um espaço de debate e pensamento crítico, seja porque se tornou arcaica, seja porque está longe e afastada do mundo real da juventude.

    A imposição de uma Escola Sem Partido é, na verdade, uma ameaça direta ao desenvolvimento da sociedade brasileira, especialmente para os mais pobres. Ao tentar silenciar o debate crítico nas escolas, impede-se que os estudantes – sobretudo aqueles vindos das camadas populares – tenham acesso a uma educação que os capacite a questionar as desigualdades sociais e buscar mudanças. Em vez de promover a liberdade de escolha, a ESP busca manter a ignorância e a obediência cega, favorecendo a perpetuação de uma estrutura de poder que beneficia uma elite e marginaliza o restante da população.

    Para os pobres, essa política é ainda mais devastadora, pois retira a única chance que muitos têm de ascender socialmente por meio da educação. Uma escola que não estimula o pensamento crítico torna-se uma ferramenta de opressão, em vez de emancipação. Ao limitar o acesso a ideias que possam desafiar o status quo, a ESP reforça a exclusão social e perpetua as desigualdades que impedem os mais pobres de sonhar com uma realidade diferente. Em suma, uma Escola Sem Partido não é uma escola neutra; é uma escola que condena as novas gerações à submissão, privando-as do poder transformador do conhecimento.