
A quem interessa a destruição da escola pública? A quem serve o abandono, o descaso, a precarização programada das instituições que deveriam garantir às massas acesso àquilo que é, historicamente, o motor da libertação humana: o conhecimento? Não se trata de erro, de falha técnica ou de omissão ocasional. A destruição da escola pública é parte de um projeto de classe. Um projeto friamente arquitetado pelas elites econômicas que sempre souberam que o saber é um campo de disputa — e que o povo instruído, com tempo e consciência, se torna ingovernável, insubmisso, incompatível com a ordem da exploração.
As elites nunca temeram o povo faminto — esse, elas disciplinam com cestas básicas e bala de borracha. O que as apavora de verdade é o povo que pensa. O povo que lê. O povo que se organiza. Por isso a escola precisa ser sabotada até se tornar um espaço de desistência. Por isso o professor precisa ser humilhado, a estrutura abandonada, a verba cortada, a biblioteca trancada, o aluno criminalizado. A escola precisa deixar de ser ponte para virar cova.
Não é coincidência que mais de 90% das escolas públicas do país não ofereçam as condições mínimas de permanência e desenvolvimento aos seus estudantes. Não é acaso que professores sejam tratados como subcategoria funcional, que a carreira docente seja marcada por adoecimento físico e mental, que os currículos sejam rasgados por reformas tecnocráticas que nada dizem sobre a realidade do estudante pobre, periférico e racializado.
A elite investe pesado em manter a escola pública irrelevante, porque sabe que uma escola viva é uma ameaça ao seu monopólio simbólico e material sobre tudo. E esse sucateamento não é um fenômeno isolado: ele caminha de mãos dadas com a destruição da saúde pública, da mobilidade urbana, da assistência social, da cultura e do próprio mundo do trabalho. Trata-se de uma engrenagem de extermínio em ritmo lento, que mantém o povo sempre um passo atrás da dignidade, sufocado entre a fome e a culpa, entre o cansaço e a obediência.
Nesse cenário, é fundamental compreender o que está em jogo: o tempo. O tempo, hoje, é o novo nome do poder. O tempo livre, de qualidade, que permite existir para além da sobrevivência, tornou-se o mais precioso e mais desigual de todos os recursos sociais. Ter tempo virou sinônimo de status. Tempo é o novo luxo.
Aquele que tem tempo para cuidar da saúde, para escolher o que come, para ler, para pensar, para descansar, para educar os filhos com atenção, para se dedicar à própria sensibilidade e espiritualidade, não vive como o restante da sociedade. E por que ele tem esse tempo? Porque alguém está fazendo tudo por ele.
Porque o tempo de poucos é sustentado pela servidão cotidiana de muitos. O privilégio de quem vive com tempo só existe porque milhares trabalham para que ele não precise trabalhar. O lazer da elite é construído sobre o esgotamento do povo. O tempo livre virou marca de classe porque é a evidência mais cruel de que existe uma multidão inteira servindo para que uma minoria não precise se levantar da cadeira.
O trabalhador, por sua vez, não tem tempo. Ele é forçado a gastar seus dias correndo atrás da própria sobrevivência, sem margem de escolha, consumido por jornadas extenuantes, transporte precário, dívidas impagáveis, violência urbana, doenças não tratadas e ausência completa de perspectiva. E o mais perverso é que ele ainda é convencido de que essa vida miserável é culpa sua.
Dizem que ele não se esforçou, que não estudou o suficiente, que não soube aproveitar as oportunidades. Inventaram a mentira da meritocracia para que ele não questione o sistema, mas a si mesmo. E, cansado demais para reagir, ele agradece pelas migalhas. Carrega o mundo nas costas e ainda se culpa por tropeçar.
Mas a verdade — e aqui reside a faísca da revolta — é que tudo o que existe neste mundo foi produzido por esse mesmo povo que não tem tempo nem reconhecimento. Toda a estrutura que permite à elite viver com conforto e tranquilidade foi construída com o suor, o sangue e o sacrifício de quem nunca teve o direito de parar.
Toda riqueza acumulada, todo luxo, todo patrimônio, toda herança, todo conhecimento aplicado, tudo, absolutamente tudo, é fruto do trabalho humano. E quem trabalha é o povo. Quem limpa as cidades, planta a comida, cuida das crianças, dirige os ônibus, constrói os prédios, costura as roupas, prepara as refeições, carrega os sacos de cimento, dá aula nas escolas, atende nos hospitais — é o povo.
A elite não produz absolutamente nada. Ela apenas vive do que é extraído do corpo e do tempo dos outros. O dia em que o povo compreender, de forma clara, definitiva e organizada, que é ele quem produz tudo e todas as coisas — e que tudo e todas as coisas lhe pertencem por direito — esse sistema apodrecido começará a ruir.
O dia em que o povo olhar para os prédios, os carros, os alimentos, os serviços, os livros, a energia elétrica, a ciência, a arte, o saber, e perceber que tudo aquilo existe porque alguém como ele se sacrificou, esse será o dia da virada. Porque quem produz tem o direito de reivindicar. E se o povo reivindicar o que é seu — o tempo, o saber, a dignidade, o mundo — nada, absolutamente nada, permanecerá como está.
É por isso que a escola pública precisa ser destruída. Porque uma escola viva, crítica, popular, enraizada na realidade, com professores valorizados e alunos respeitados, é a primeira trincheira onde essa consciência começa a germinar.
A elite sabe que uma escola que ensina o povo a pensar é uma bomba-relógio contra seus privilégios. Porque o conhecimento desperta a consciência, e a consciência exige tempo. Uma escola estruturada não apenas educa, ela devolve ao povo aquilo que lhe foi roubado: a capacidade de compreender sua história, de reescrevê-la, de romper com a ordem imposta.
Quando negam livros, merenda, salário digno, permanência estudantil, respeito pedagógico e segurança institucional, não estão apenas cortando verbas — estão assassinando, dia após dia, a possibilidade de o povo se levantar. A destruição da escola pública é a tentativa de impedir que o povo recupere seu tempo.
Porque com tempo, ele pensa. E se pensa, ele age. E se age, toma o que é seu. O tempo que hoje é da elite — tempo para criar, para planejar, para decidir, para viver — voltará a ser do povo no dia em que ele entender que é ele quem produz tudo. E nesse dia, não haverá blindagem, sobrenome, diploma, mercado ou herança que sustente a Casa Grande.
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