Escola Sem Partido: a quem interessa?

Há muito se apregoa a ideia de que, nas escolas, os estudantes são doutrinados por professores marxistas que desejam criar um exército de militantes comunistas que irão liderar uma revolução e instalar uma sociedade baseada nos princípios do filósofo Karl Marx. Bem, isso não passa de uma falácia, pois, em defesa de uma escola “desideologizada”, apregoa-se exatamente uma ideologia da negação da própria ideologia. Algo impossível, pois os seres humanos são, por natureza, seres políticos e, portanto, carregados de ideologias, independentemente de quais sejam.

Contudo, o que a realidade nos mostra não corrobora esse discurso. Se isso fosse verdade, os partidos de esquerda de orientação marxista teriam votações arrasadoras nas eleições gerais e municipais. Não é isso que estamos assistindo. Pelo contrário, assistimos ao surgimento de uma juventude reacionária, defensora de ideias que não viveram e, por isso, o reacionarismo não tem lógica. É incompreensível ver jovens defenderem um conjunto de ideias que, em última análise, irá oprimi-los.

A quem interessa uma “Escola Sem Partido” (ESP)? Uma escola sem partido interessa exatamente a esse grupo da sociedade que quer perpetuar seus privilégios, abdicando de oferecer uma educação que promova a crítica científica e a produção de um conhecimento que traga verdadeira liberdade de pensamento e de escolha. Não há nada de errado em escolher ser reacionário, conservador, progressista ou revolucionário, mas é necessário compreender os motivos pelos quais se faz a escolha ideológica.

Uma Escola Sem Partido interessa a uma elite acostumada a dar ordens e a ter pessoas que as sigam obedientes e caladas, concordando com tudo. Interessa a uma elite que não aceita que as camadas populares tenham acesso a um conhecimento crítico e libertador, capaz de capacitar os jovens a fazerem escolhas conscientes, independentemente da matiz ideológica.

Na verdade, a ESP interessa àqueles que temem o questionamento das estruturas sociais vigentes. São os mesmos que não aceitam a crítica ao modelo de produção capitalista, à divisão de classes e às questões relacionadas à orientação sexual. Deslegitimam qualquer luta por inclusão, igualdade, respeito e tolerância, como as pautas LGBTQIA+, mulheres, negros e pessoas com deficiência. Para eles, a mordaça é uma ferramenta essencial para manter a ordem e evitar que essas discussões cheguem ao ambiente escolar, onde o pensamento crítico pode florescer. Antes de conservadores, são reacionários.

É notório que essa pauta surge em um momento em que os pobres passaram a acessar o ensino superior com mais facilidade, seja com políticas de cotas, bolsas e financiamentos estudantis, como o PROUNI e o FIES, ou pela oferta de mais vagas com a abertura de universidades públicas. O próprio ENEM, por si só, democratiza esse acesso, na medida em que todas as universidades federais utilizam esse sistema de avaliação para distribuir vagas. Assim, o estudante não precisa mais pagar vestibulares de diversas universidades, além de custear transporte e hospedagem para realizar as provas em localidades distantes de sua moradia. O acesso do pobre ao ensino superior acendeu um alerta vermelho para a elite acostumada a ver esse ambiente frequentado apenas pelos filhos das classes dominantes. A universidade brasileira está se tornando um local de diversidade e debate amplo de ideias. E isso incomoda: o debate de ideias.

Então, qual a saída que essa elite encontrou? O sucateamento da educação básica. A defesa de uma Escola Sem Partido é o primeiro passo para a destruição de uma escola centrada no pensamento crítico e libertador. Verdade seja dita: há muito tempo a escola não tem sido um espaço de debate e pensamento crítico, seja porque se tornou arcaica, seja porque está longe e afastada do mundo real da juventude.

A imposição de uma Escola Sem Partido é, na verdade, uma ameaça direta ao desenvolvimento da sociedade brasileira, especialmente para os mais pobres. Ao tentar silenciar o debate crítico nas escolas, impede-se que os estudantes – sobretudo aqueles vindos das camadas populares – tenham acesso a uma educação que os capacite a questionar as desigualdades sociais e buscar mudanças. Em vez de promover a liberdade de escolha, a ESP busca manter a ignorância e a obediência cega, favorecendo a perpetuação de uma estrutura de poder que beneficia uma elite e marginaliza o restante da população.

Para os pobres, essa política é ainda mais devastadora, pois retira a única chance que muitos têm de ascender socialmente por meio da educação. Uma escola que não estimula o pensamento crítico torna-se uma ferramenta de opressão, em vez de emancipação. Ao limitar o acesso a ideias que possam desafiar o status quo, a ESP reforça a exclusão social e perpetua as desigualdades que impedem os mais pobres de sonhar com uma realidade diferente. Em suma, uma Escola Sem Partido não é uma escola neutra; é uma escola que condena as novas gerações à submissão, privando-as do poder transformador do conhecimento.

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