Só um desabafo

Tenho 51 anos e, depois de 29 anos dentro da sala de aula, percebo que o cansaço que me acompanha já não pode ser explicado apenas pela rotina intensa de trabalho. Não se trata de um dia difícil, de uma semana pesada ou de um período específico do ano letivo; é um desgaste contínuo, que se acumula e se torna quase permanente, como se o corpo e a mente não conseguissem mais retornar a um estado real de descanso. Dou 11 aulas diárias, lido com mais de 300 alunos, transito por diferentes turmas, realidades e dinâmicas, e, ao mesmo tempo, preciso manter atenção constante, domínio de conteúdo, gestão de conflitos, controle disciplinar, sensibilidade pedagógica e cumprimento de uma série de exigências burocráticas que se multiplicam e que raramente consideram os limites humanos de quem executa esse trabalho.

O esgotamento físico é evidente, mas o que mais pesa é o desgaste emocional que se instala de forma silenciosa. Ao longo do dia, não sou apenas professor; torno-me mediador de tensões, orientador, organizador, gestor de sala, alguém que tenta manter um ambiente minimamente funcional em condições muitas vezes adversas. Entre uma aula e outra, surgem registros a preencher, relatórios a organizar, sistemas que não funcionam adequadamente, cobranças que chegam de diferentes direções e a sensação constante de que sempre há algo pendente, algo incompleto, algo que exige atenção imediata. O tempo parece sempre insuficiente, e o intervalo entre as tarefas deixa de ser espaço de respiro para se tornar apenas um momento de transição entre uma exigência e outra.

Com o passar dos anos, começo a perceber que esse acúmulo vai alterando também a forma como encaro o próprio trabalho. O entusiasmo que antes me levava a planejar aulas com mais cuidado, a buscar novas abordagens, a investir tempo em leituras e aprofundamentos, vai sendo substituído por uma lógica de sobrevivência cotidiana. Não porque eu tenha perdido o interesse pela educação ou pelos alunos, mas porque a energia necessária para sustentar esse nível de envolvimento já não está disponível como antes. Chego em casa cansado, muitas vezes sem disposição para estudar, para refletir sobre a prática pedagógica ou mesmo para realizar atividades pessoais que antes me davam prazer. O trabalho invade o tempo, invade o descanso e, aos poucos, invade também a motivação.

Há também uma dimensão difícil de ignorar: a sensação de desvalorização. A responsabilidade do professor é enorme, o impacto social do trabalho é inegável, mas a remuneração não acompanha essa complexidade, e o reconhecimento simbólico parece cada vez mais escasso. A dedicação exigida é alta, mas as condições oferecidas não acompanham essa exigência, criando uma espécie de desequilíbrio permanente entre o que se entrega e o que se recebe. Esse descompasso não aparece de forma abrupta; ele vai se consolidando lentamente, alimentando um desânimo que não surge de um episódio isolado, mas de uma sequência de experiências que reforçam a percepção de que o esforço individual pouco altera o cenário geral.

O resultado é um estado de exaustão que não se resolve apenas com descanso ocasional. Não é apenas o corpo que se cansa; é a mente que começa a funcionar em modo econômico, é a motivação que diminui, é a esperança de melhora que se torna cada vez mais distante. Continuo entrando em sala de aula, continuo explicando conteúdos, continuo tentando manter a qualidade possível, mas percebo que algo mudou. O trabalho que antes era também fonte de realização passa a ser, muitas vezes, uma tarefa a cumprir, um percurso a atravessar, um dia a vencer. Não deixo de reconhecer a importância do que faço, mas sinto que a estrutura em que esse trabalho se insere consome mais do que devolve, e essa constatação, repetida diariamente, vai alimentando um cansaço que já não é apenas momentâneo, mas estrutural, profundo e persistente.

Comentários

Deixe um comentário