Quando o rebanho vira recurso: o escândalo das relações utilitaristas na igreja

A ideia de Cristo quando esteve neste mundo era criar uma comunidade viva, onde cada pessoa é compreendida na sua individualidade, amada, cuidada e integrada como parte do corpo de Cristo, que é perfeito e saudável (1 Coríntios 12:27). Jesus deixou claro que o modelo de liderança no Seu Reino não é o modelo do mundo, onde os poderosos dominam e exploram os que não tem poder, os mais fracos e os excluídos, mas sim o serviço, o cuidado e a entrega (Marcos 10:42-45).

Porém, o que temos presenciado, nos dias de hoje, em muitas igrejas é o oposto do modelo de Cristo: pastores que tratam as ovelhas como ferramentas para algum projeto pessoal de poder, medindo seu valor pelo potencial financeiro, status social ou influência política. Aqueles que sofrem, que não contribuem com altos valores são excluídos, não têm influência e, consequentemente, são abandonados, invisibilizados, descartados como peças quebradas de uma engrenagem. Mas quando se trata de alguém com recursos, prestígio ou posição, esses mesmos líderes se mobilizam, visitam, oferecem cargos, colocam tapetes vermelhos e, por vezes, assim que entram na Igreja já são cooptados pela máquina e já é colocado como líder de ministérios, sem raiz, sem discipulado, sem vida comunitária verdadeira, sem história. 

Essa é a marca do mercenário que Jesus denunciou: “O mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge; […] foge porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas” (João 10:12-13). Quando um pastor negligencia os fracos, os quebrados e os pobres, ele expõe que seu verdadeiro senhor não é Cristo, mas Mamom (Mateus 6:24).

O teólogo Dietrich Bonhoeffer já alertava contra esse tipo de liderança utilitarista, que transforma a graça em mercadoria: “A graça barata é a graça sem discipulado, sem cruz, sem Jesus Cristo vivo e encarnado” (Discipulado, 1937). Em outras palavras, igrejas que oferecem posições em troca de dízimos e contribuições altas não são comunidades do Reino, mas mercados religiosos a serviço de interesses humanos.

O livro Uma Igreja Tov (Scot McKnight e Laura Barringer) denuncia com coragem essa perversão, mostrando como comunidades adoecidas colocam a reputação, o dinheiro e os números acima das pessoas e da verdade. Eles afirmam: “Quando as pessoas deixam de importar mais do que as estruturas e os números, a igreja deixou de ser boa e se tornou um ambiente tóxico” 

Esse modelo mercantilista é não apenas anticristão, mas profundamente diabólico, pois troca o cuidado pastoral pelo lucro, a comunhão pelo clientelismo, e a santidade pelo prestígio. Jesus não veio para construir impérios religiosos, mas para formar uma comunidade de discípulos que carregam a cruz, não que compram o altar.

A advertência de Tiago ecoa de maneira cortante: “Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas” (Tiago 2:1). Quando a igreja faz acepção, priorizando o rico e desprezando o pobre, ela trai o Evangelho, ela trai Cristo. 

É hora de a igreja se arrepender dessa idolatria travestida de espiritualidade, de derrubar os altares construídos ao redor de cifras e cargos, e voltar ao modelo simples, profundo e radical do Bom Pastor, que conhece cada ovelha pelo nome (João 10:3), e não pelo valor do dízimo.

Porque onde o pastor abandona suas ovelhas e corre atrás dos poderosos, já não há mais igreja. Há apenas um negócio com fachada cristã. 

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