Categoria: Escola Pública

Reflexões sobre escola pública.

  • A destruição do magistério como método: o relato de um professor esgotado

    Sou professor desde 1997. Dizer isso, para mim, nunca foi apenas informar uma data de ingresso em uma profissão, mas afirmar uma identidade, uma escolha de vida e, durante muito tempo, um motivo profundo de orgulho. Eu amo ser professor. Amo dar aula. Amo o meu conteúdo. Amo, de modo muito particular, ser professor de História, porque ensinar História nunca significou, para mim, apenas transmitir informações sobre o passado, mas oferecer instrumentos para que os estudantes compreendam o mundo em que vivem, percebam as estruturas que organizam a sociedade e possam, quem sabe, alargar os limites da própria experiência. Há uma dignidade muito grande em entrar em sala de aula todos os dias levando consigo a convicção de que o conhecimento ainda pode abrir frestas em meio à brutalidade do mundo. E talvez seja justamente por amar tanto essa profissão que a dor de exercê-la, hoje, seja tão funda, tão amarga e tão difícil de nomear.

    O que me abate não é simplesmente o cansaço rotineiro de quem trabalha muito. Não é o desconforto passageiro de um dia ruim. Não é a irritação comum que toda profissão traz. O que me atravessa é outra coisa, mais pesada, mais duradoura, mais corrosiva. É um desânimo que se acumula e que, pouco a pouco, vai deixando de ser desânimo para se tornar esgotamento. A cada dia sinto que o desrespeito aumenta. E aumenta de um modo que não é episódico, nem circunstancial, nem resolvível por meio de uma técnica pedagógica nova, de um curso de formação continuada ou de alguma fórmula motivacional vazia. Já se tentou de tudo. Já se tentou adaptar a aula, aproximar o conteúdo da realidade dos estudantes, flexibilizar a linguagem, tornar as atividades mais dinâmicas, ser mais próximo, ser mais acolhedor, ser mais compreensivo, ser mais rígido, impor limites, endurecer o tom, aliviar o clima, construir vínculos, ceder, insistir, reinventar. E, apesar de tudo isso, o que resta, muitas vezes, é a sensação brutal de que nada adianta, porque o professor, no fim das contas, será desrespeitado em sua essência, em sua dignidade, em sua alma.

    Há um tipo de violência que não deixa hematoma, mas vai destruindo o sujeito por dentro. E essa violência, na escola, se manifesta quando o professor deixa de ser visto como alguém que ocupa um lugar legítimo de mediação do conhecimento e passa a ser tratado como obstáculo, como figura descartável, como presença irrelevante ou, pior ainda, como alvo disponível para toda sorte de agressões cotidianas. Não falo apenas de xingamentos explícitos, embora eles existam. Falo também da indiferença sistemática, do deboche permanente, da recusa ostensiva em realizar qualquer atividade, do gesto calculado de tumultuar a aula, do prazer de desestabilizar o ambiente, da afronta repetida como forma de afirmação. E não há romantização pedagógica que consiga encobrir isso. Há, sim, estudantes que querem aprender, que respeitam, que tentam, que lutam contra todas as dificuldades para extrair da escola alguma possibilidade de futuro. Mas também há aqueles que não querem estar ali, que não querem aprender, que rejeitam a própria ideia de esforço, e que, por estarem obrigados a ocupar aquele espaço, transformam a vida de professores e dos colegas que desejam estudar em um verdadeiro inferno.

    Talvez uma das maiores hipocrisias do nosso tempo esteja na distância abissal entre o discurso oficial sobre a educação e a realidade concreta vivida por quem está no chão da escola. O discurso é bonito, impecável, moralmente bem acabado. Todos têm direito a uma educação de qualidade. Todos devem ser incluídos. A escola deve acolher a todos. A aprendizagem deve ser garantida. A permanência deve ser assegurada. Nada disso, em si, é desprezível; ao contrário, trata-se de princípios importantes, conquistados historicamente e que não deveriam ser tratados com leviandade. O problema começa quando esse discurso, ao invés de se traduzir em condições reais de trabalho, em estrutura adequada, em responsabilização das famílias, em apoio efetivo à gestão e em políticas sérias de aprendizagem, converte-se em retórica vazia e em instrumento de opressão sobre o professor.

    Porque, no final das contas, o que se exige é que o professor produza resultados em meio ao caos, suporte o insuportável, administre o inadmissível, aceite o inaceitável e, ao mesmo tempo, mantenha intacta a própria saúde emocional, como se fosse possível ensinar em qualquer circunstância, a qualquer custo, independentemente de toda deterioração objetiva e subjetiva do ambiente escolar. E, nesse processo, algo ainda mais grave vem sendo corroído: o próprio registro da realidade escolar.

    Quando falo da perda de dignidade do professor, não me refiro a um poder pequeno, mesquinho, autoritário, como se a questão estivesse em “dar bomba” por décimos ou em exercer uma autoridade arbitrária sobre os estudantes. Isso é uma caricatura que apenas desvia o foco do problema real. Não se trata de poder autocrata, estúpido e estéril. Trata-se de algo muito mais básico: o direito de registrar a realidade tal como ela é.

    Hoje, o professor é, muitas vezes, constrangido — direta ou indiretamente — a aprovar estudantes que não atingiram minimamente os critérios estabelecidos. Não estamos falando de 0,1 ponto. Estamos falando de estudantes que deixam de conquistar 10, 15, 20 pontos ao longo do ano letivo e que, ainda assim, precisam ser “ajustados” para que o sistema funcione. Somos pressionados a alterar notas, a reconfigurar resultados em um, dois ou até três bimestres, não por convicção pedagógica, mas para evitar o aumento de índices que comprometam a imagem da instituição ou da rede. O que está sendo vilipendiado aqui não é apenas a autoridade docente, mas o próprio fundamento do trabalho educativo: a relação entre esforço, avaliação e resultado.

    Quando o registro deixa de refletir a realidade, a escola entra em um estado de ficção institucionalizada. Todos sabem o que acontece, mas todos fingem que não sabem. O estudante sabe que não precisa se esforçar. O professor sabe que não pode exigir. A gestão sabe que não pode tensionar demais. E, nesse jogo, a verdade vai sendo apagada. E talvez não exista violência maior contra o professor do que essa: ser impedido de dizer, com honestidade, o que de fato está acontecendo.

    Se a lógica instituída é essa, os estudantes já perceberam. Perceberam que, no fundo, o sistema não sustenta aquilo que afirma. E, diante disso, a pergunta que se impõe é inevitável: o que levaria alguém a se preocupar em estudar, se o próprio sistema comunica, na prática, que o estudo deixou de ser condição para avançar?

    Essa contradição abre espaço para uma reflexão ainda mais incômoda, mas necessária: será que a escola deve ser, de fato, para todos, tal como se afirma de maneira quase dogmática? Ou será que há, nesse pressuposto, uma espécie de forçação de barra herdada de um ideal iluminista que acredita que todos desejam a mesma forma de “iluminação”? Porque a realidade concreta sugere algo mais complexo e mais duro de admitir: aprender exige querer aprender. Exige disposição. Exige entrega. E há aqueles que, simplesmente, não querem. E talvez não queiram.

    Isso não significa negar o direito à educação, mas significa questionar se a obrigatoriedade da presença, desvinculada de qualquer compromisso efetivo com a aprendizagem, não está produzindo um ambiente em que ninguém ganha, nem o professor, nem o estudante que quer aprender, nem o próprio sistema, porque, ao obrigar a permanência de quem não quer estar ali, a escola se torna um espaço de tensão permanente, onde o direito de alguns passa a ser sistematicamente violado pelo desinteresse ativo de outros.

    E, nesse cenário, os mais prejudicados continuam sendo justamente aqueles que querem aprender, porque são eles que perdem a aula para o barulho, para a indisciplina, para o tumulto, para a energia desviada o tempo todo na tentativa de conter aqueles que sabotam o espaço comum, sendo obrigados a assistir, muitas vezes em silêncio, à degradação de um ambiente que deveria, antes de tudo, protegê-los.

    Mas há uma dimensão ainda mais brutal desse processo que já não pode mais ser ignorada, porque ela ultrapassa o campo simbólico e entra diretamente no campo do adoecimento real, concreto e mensurável dos professores, uma vez que nunca na história recente deste país se aposentaram tantos docentes por doenças psiquiátricas e situacionais, não porque sejam frágeis, não porque não suportem a profissão, mas porque ultrapassaram seus próprios limites, e aqui é importante insistir nisso: não se trata de chegar ao limite, trata-se de ultrapassá-lo, de seguir além do ponto em que ainda seria possível se recompor.

    O que se vê hoje, em muitas escolas, são professores medicados, dopados por ansiolíticos, antidepressivos e estabilizadores de humor, com fala cadenciada, olhar vazio, movimentos lentos, tentando apenas atravessar o dia sem colapsar completamente, o que levanta uma pergunta que deveria constranger qualquer gestor público, qualquer formulador de política educacional e qualquer discurso oficial: o que a escola está fazendo com aqueles que deveriam ser seus principais ativos?

    E como se não bastasse o adoecimento silencioso, cresce também o número de casos de violência física contra professores, o que desmonta completamente a narrativa de que estamos lidando apenas com conflitos pontuais ou com dificuldades pedagógicas, pois há professores sendo chutados, esmurrados, atingidos por cadeiras, cuspidos, alvos de arremesso de objetos, desde bolinhas de papel até situações mais degradantes, além de episódios em que até mesmo gestos simples, como pedir para um aluno buscar água, se tornam potenciais situações de humilhação, com relatos de água adulterada, cuspida ou pior.

    E o mais perverso de tudo isso é que, mesmo diante de agressões que, em qualquer outro ambiente social, ensejariam uma resposta imediata e contundente, o professor é obrigado a silenciar, a engolir seco, a registrar, a chamar responsáveis que não comparecem, a se dirigir a delegacias onde perde horas para registrar ocorrências que, na prática, não produzem qualquer efeito concreto, para, no dia seguinte, retornar à sala de aula e se deparar com o mesmo estudante, agora munido de um olhar de deboche, sustentado pela certeza de que nada acontecerá, ao mesmo tempo em que o professor sabe que qualquer reação mais firme de sua parte pode desencadear um processo inverso, com exposição pública, acionamento de conselhos, corregedorias e até risco de exoneração.

    Diante de tudo isso, começa a se delinear uma hipótese que é tão perturbadora quanto plausível, na medida em que nos obriga a abandonar a ingenuidade: e se a destruição do magistério não for um efeito colateral, mas um método, uma estratégia, um projeto? Em uma sociedade marcada pela abundância de informação, destruir o professor é impedir que a informação se transforme em conhecimento, e impedir a transformação da informação em conhecimento é, em última instância, impedir a emancipação, sobretudo daqueles que não pertencem às elites endinheiradas, porque informação sem mediação não emancipa, informação sem crítica não liberta, informação sem professor é apenas ruído, e um povo submetido ao ruído é um povo mais facilmente controlável.

    Talvez por isso o sentimento de fracasso se infiltre com tanta força na alma do professor, não como um dado objetivo, mas como uma sensação persistente, corrosiva e injusta, porque, depois de tantos anos de dedicação, de tanto investimento afetivo e intelectual, de tanto esforço para preservar algum sentido no ato de ensinar, ver-se reduzido a alguém que apenas administra danos, que tenta atravessar o dia sem ser destruído e que luta para manter um mínimo de sanidade emocional é uma experiência profundamente devastadora.

    E é nesse ponto que a distinção entre cansaço e esgotamento deixa de ser retórica e passa a ser existencial, porque o cansaço se resolve com descanso, com pausa, com uma noite de sono, enquanto o esgotamento é outra coisa, é a sensação de não ter mais de onde tirar, de não conseguir recompor aquilo que foi drenado ao longo do tempo, de perceber que, no domingo à noite, a ansiedade já não é sobre o trabalho em si, mas sobre o que virá com ele, sobre a repetição de um ciclo de desrespeito, tensão e desgaste que parece não ter fim.

    Dá vontade de desistir, e essa talvez seja uma das confissões mais duras de fazer, porque ela não nasce do desprezo pela profissão, mas exatamente do contrário, nasce do amor por ela, do apego a algo que ainda faz sentido em essência, mas que, na prática, tem se tornado quase insustentável, o que torna tudo ainda mais doloroso, porque abandonar aquilo que se ama não é um gesto simples, não é uma decisão fria, é uma ruptura interna profunda.

    E, no entanto, permaneço, não porque esteja bem, não porque tenha encontrado alguma solução, não porque acredite que tudo vá melhorar de forma espontânea, mas porque há uma história construída aqui, porque há anos investidos, porque há uma identidade que não se desfaz com facilidade, porque há, em algum lugar, uma fidelidade ao que fui e ao que ainda acredito que a educação poderia ser.

    Permaneço, mas não iludido, não confortável, não inteiro, porque reconhecer o próprio esgotamento talvez seja, neste momento, o único gesto de honestidade possível diante de uma realidade que insiste em negar aquilo que todos os dias se impõe dentro das salas de aula, onde professores seguem de pé não porque estejam fortes, mas porque ainda não tiveram o direito de cair.

  • Tempo é Poder

    A quem interessa a destruição da escola pública? A quem serve o abandono, o descaso, a precarização programada das instituições que deveriam garantir às massas acesso àquilo que é, historicamente, o motor da libertação humana: o conhecimento? Não se trata de erro, de falha técnica ou de omissão ocasional. A destruição da escola pública é parte de um projeto de classe. Um projeto friamente arquitetado pelas elites econômicas que sempre souberam que o saber é um campo de disputa — e que o povo instruído, com tempo e consciência, se torna ingovernável, insubmisso, incompatível com a ordem da exploração.

    As elites nunca temeram o povo faminto — esse, elas disciplinam com cestas básicas e bala de borracha. O que as apavora de verdade é o povo que pensa. O povo que lê. O povo que se organiza. Por isso a escola precisa ser sabotada até se tornar um espaço de desistência. Por isso o professor precisa ser humilhado, a estrutura abandonada, a verba cortada, a biblioteca trancada, o aluno criminalizado. A escola precisa deixar de ser ponte para virar cova.

    Não é coincidência que mais de 90% das escolas públicas do país não ofereçam as condições mínimas de permanência e desenvolvimento aos seus estudantes. Não é acaso que professores sejam tratados como subcategoria funcional, que a carreira docente seja marcada por adoecimento físico e mental, que os currículos sejam rasgados por reformas tecnocráticas que nada dizem sobre a realidade do estudante pobre, periférico e racializado.

    A elite investe pesado em manter a escola pública irrelevante, porque sabe que uma escola viva é uma ameaça ao seu monopólio simbólico e material sobre tudo. E esse sucateamento não é um fenômeno isolado: ele caminha de mãos dadas com a destruição da saúde pública, da mobilidade urbana, da assistência social, da cultura e do próprio mundo do trabalho. Trata-se de uma engrenagem de extermínio em ritmo lento, que mantém o povo sempre um passo atrás da dignidade, sufocado entre a fome e a culpa, entre o cansaço e a obediência.

    Nesse cenário, é fundamental compreender o que está em jogo: o tempo. O tempo, hoje, é o novo nome do poder. O tempo livre, de qualidade, que permite existir para além da sobrevivência, tornou-se o mais precioso e mais desigual de todos os recursos sociais. Ter tempo virou sinônimo de status. Tempo é o novo luxo.

    Aquele que tem tempo para cuidar da saúde, para escolher o que come, para ler, para pensar, para descansar, para educar os filhos com atenção, para se dedicar à própria sensibilidade e espiritualidade, não vive como o restante da sociedade. E por que ele tem esse tempo? Porque alguém está fazendo tudo por ele.

    Porque o tempo de poucos é sustentado pela servidão cotidiana de muitos. O privilégio de quem vive com tempo só existe porque milhares trabalham para que ele não precise trabalhar. O lazer da elite é construído sobre o esgotamento do povo. O tempo livre virou marca de classe porque é a evidência mais cruel de que existe uma multidão inteira servindo para que uma minoria não precise se levantar da cadeira.

    O trabalhador, por sua vez, não tem tempo. Ele é forçado a gastar seus dias correndo atrás da própria sobrevivência, sem margem de escolha, consumido por jornadas extenuantes, transporte precário, dívidas impagáveis, violência urbana, doenças não tratadas e ausência completa de perspectiva. E o mais perverso é que ele ainda é convencido de que essa vida miserável é culpa sua.

    Dizem que ele não se esforçou, que não estudou o suficiente, que não soube aproveitar as oportunidades. Inventaram a mentira da meritocracia para que ele não questione o sistema, mas a si mesmo. E, cansado demais para reagir, ele agradece pelas migalhas. Carrega o mundo nas costas e ainda se culpa por tropeçar.

    Mas a verdade — e aqui reside a faísca da revolta — é que tudo o que existe neste mundo foi produzido por esse mesmo povo que não tem tempo nem reconhecimento. Toda a estrutura que permite à elite viver com conforto e tranquilidade foi construída com o suor, o sangue e o sacrifício de quem nunca teve o direito de parar.

    Toda riqueza acumulada, todo luxo, todo patrimônio, toda herança, todo conhecimento aplicado, tudo, absolutamente tudo, é fruto do trabalho humano. E quem trabalha é o povo. Quem limpa as cidades, planta a comida, cuida das crianças, dirige os ônibus, constrói os prédios, costura as roupas, prepara as refeições, carrega os sacos de cimento, dá aula nas escolas, atende nos hospitais — é o povo.

    A elite não produz absolutamente nada. Ela apenas vive do que é extraído do corpo e do tempo dos outros. O dia em que o povo compreender, de forma clara, definitiva e organizada, que é ele quem produz tudo e todas as coisas — e que tudo e todas as coisas lhe pertencem por direito — esse sistema apodrecido começará a ruir.

    O dia em que o povo olhar para os prédios, os carros, os alimentos, os serviços, os livros, a energia elétrica, a ciência, a arte, o saber, e perceber que tudo aquilo existe porque alguém como ele se sacrificou, esse será o dia da virada. Porque quem produz tem o direito de reivindicar. E se o povo reivindicar o que é seu — o tempo, o saber, a dignidade, o mundo — nada, absolutamente nada, permanecerá como está.

    É por isso que a escola pública precisa ser destruída. Porque uma escola viva, crítica, popular, enraizada na realidade, com professores valorizados e alunos respeitados, é a primeira trincheira onde essa consciência começa a germinar.

    A elite sabe que uma escola que ensina o povo a pensar é uma bomba-relógio contra seus privilégios. Porque o conhecimento desperta a consciência, e a consciência exige tempo. Uma escola estruturada não apenas educa, ela devolve ao povo aquilo que lhe foi roubado: a capacidade de compreender sua história, de reescrevê-la, de romper com a ordem imposta.

    Quando negam livros, merenda, salário digno, permanência estudantil, respeito pedagógico e segurança institucional, não estão apenas cortando verbas — estão assassinando, dia após dia, a possibilidade de o povo se levantar. A destruição da escola pública é a tentativa de impedir que o povo recupere seu tempo.

    Porque com tempo, ele pensa. E se pensa, ele age. E se age, toma o que é seu. O tempo que hoje é da elite — tempo para criar, para planejar, para decidir, para viver — voltará a ser do povo no dia em que ele entender que é ele quem produz tudo. E nesse dia, não haverá blindagem, sobrenome, diploma, mercado ou herança que sustente a Casa Grande.

  • Escola Sem Partido: a quem interessa?

    Há muito se apregoa a ideia de que, nas escolas, os estudantes são doutrinados por professores marxistas que desejam criar um exército de militantes comunistas que irão liderar uma revolução e instalar uma sociedade baseada nos princípios do filósofo Karl Marx. Bem, isso não passa de uma falácia, pois, em defesa de uma escola “desideologizada”, apregoa-se exatamente uma ideologia da negação da própria ideologia. Algo impossível, pois os seres humanos são, por natureza, seres políticos e, portanto, carregados de ideologias, independentemente de quais sejam.

    Contudo, o que a realidade nos mostra não corrobora esse discurso. Se isso fosse verdade, os partidos de esquerda de orientação marxista teriam votações arrasadoras nas eleições gerais e municipais. Não é isso que estamos assistindo. Pelo contrário, assistimos ao surgimento de uma juventude reacionária, defensora de ideias que não viveram e, por isso, o reacionarismo não tem lógica. É incompreensível ver jovens defenderem um conjunto de ideias que, em última análise, irá oprimi-los.

    A quem interessa uma “Escola Sem Partido” (ESP)? Uma escola sem partido interessa exatamente a esse grupo da sociedade que quer perpetuar seus privilégios, abdicando de oferecer uma educação que promova a crítica científica e a produção de um conhecimento que traga verdadeira liberdade de pensamento e de escolha. Não há nada de errado em escolher ser reacionário, conservador, progressista ou revolucionário, mas é necessário compreender os motivos pelos quais se faz a escolha ideológica.

    Uma Escola Sem Partido interessa a uma elite acostumada a dar ordens e a ter pessoas que as sigam obedientes e caladas, concordando com tudo. Interessa a uma elite que não aceita que as camadas populares tenham acesso a um conhecimento crítico e libertador, capaz de capacitar os jovens a fazerem escolhas conscientes, independentemente da matiz ideológica.

    Na verdade, a ESP interessa àqueles que temem o questionamento das estruturas sociais vigentes. São os mesmos que não aceitam a crítica ao modelo de produção capitalista, à divisão de classes e às questões relacionadas à orientação sexual. Deslegitimam qualquer luta por inclusão, igualdade, respeito e tolerância, como as pautas LGBTQIA+, mulheres, negros e pessoas com deficiência. Para eles, a mordaça é uma ferramenta essencial para manter a ordem e evitar que essas discussões cheguem ao ambiente escolar, onde o pensamento crítico pode florescer. Antes de conservadores, são reacionários.

    É notório que essa pauta surge em um momento em que os pobres passaram a acessar o ensino superior com mais facilidade, seja com políticas de cotas, bolsas e financiamentos estudantis, como o PROUNI e o FIES, ou pela oferta de mais vagas com a abertura de universidades públicas. O próprio ENEM, por si só, democratiza esse acesso, na medida em que todas as universidades federais utilizam esse sistema de avaliação para distribuir vagas. Assim, o estudante não precisa mais pagar vestibulares de diversas universidades, além de custear transporte e hospedagem para realizar as provas em localidades distantes de sua moradia. O acesso do pobre ao ensino superior acendeu um alerta vermelho para a elite acostumada a ver esse ambiente frequentado apenas pelos filhos das classes dominantes. A universidade brasileira está se tornando um local de diversidade e debate amplo de ideias. E isso incomoda: o debate de ideias.

    Então, qual a saída que essa elite encontrou? O sucateamento da educação básica. A defesa de uma Escola Sem Partido é o primeiro passo para a destruição de uma escola centrada no pensamento crítico e libertador. Verdade seja dita: há muito tempo a escola não tem sido um espaço de debate e pensamento crítico, seja porque se tornou arcaica, seja porque está longe e afastada do mundo real da juventude.

    A imposição de uma Escola Sem Partido é, na verdade, uma ameaça direta ao desenvolvimento da sociedade brasileira, especialmente para os mais pobres. Ao tentar silenciar o debate crítico nas escolas, impede-se que os estudantes – sobretudo aqueles vindos das camadas populares – tenham acesso a uma educação que os capacite a questionar as desigualdades sociais e buscar mudanças. Em vez de promover a liberdade de escolha, a ESP busca manter a ignorância e a obediência cega, favorecendo a perpetuação de uma estrutura de poder que beneficia uma elite e marginaliza o restante da população.

    Para os pobres, essa política é ainda mais devastadora, pois retira a única chance que muitos têm de ascender socialmente por meio da educação. Uma escola que não estimula o pensamento crítico torna-se uma ferramenta de opressão, em vez de emancipação. Ao limitar o acesso a ideias que possam desafiar o status quo, a ESP reforça a exclusão social e perpetua as desigualdades que impedem os mais pobres de sonhar com uma realidade diferente. Em suma, uma Escola Sem Partido não é uma escola neutra; é uma escola que condena as novas gerações à submissão, privando-as do poder transformador do conhecimento.

  • A volta às aulas

    Olá meus amigos, bão?!Para quem não sabe, eu também sou professor de História das Redes Públicas de Ensino de Contagem (sou professor de uma EJA – ensino fundamental I e II) e do Estado (onde leciono para os alunos do 6o, 7p. ano/Fundamental e para uma turma do 2o. ano/Médio. Já fui vice-diretor de uma escola do Estado, Diretor de Escola Municipal por 06 anos, coordenador da EJA por 2 anos. Já trabalhei em cursinho pré-vestibular (desde aqueles voltados para a elite até aqueles populares), em cursos preparatórios, em escola particular… Ou seja, já vivi de tudo um pouco dentro do ambiente escolar. E é baseado nessa experiência que vou deixar uma reflexão aqui.

    Essa pandemia serviu para mostrar/escancarar uma coisa: como o ensino público é sucateado!

    A volta às aulas, nas escolas públicas, é IMPOSSÍVEL agora! As escolas públicas NÃO TEM A MÍNIMA CONDIÇÃO de criar um ambiente MINIMAMENTE seguro. Falta tudo em uma escola pública: sabão, papel higiênico, ventilação, cadeiras, mesas, quadros, pinceis… falar em álcool em gel, em pias para se lavar, em torneiras funcionando e em bebedouros adaptados é algo, então, surreal.

    As escolas particulares tem melhores condições, sem dúvida. Não tenho a menor dúvida de que eles tem TODAS as condições para o retorno das atividades presenciais. É claro que há o risco

    Para mim, a grande questão que está em jogo não é se as escolas tem ou não capacidade para se retornar. Para mim, o que se está em jogo é essencialmente a POLÍTICA EDUCACIONAL adotada pelo ESTADO brasileiro. O retorno das aulas exporá as vísceras da educação pública. Será o carimbo definitivo do abismo que separa as redes pública e privada de educação.

    Ao voltar, as diferenças sociais serão expostas de forma explícitas. É certo e sabido que haverá um crescimento da curva de contágios. E a pergunta que se faz é: onde serão tratados os doentes? Os contaminados da rede privada serão tratados na rede privada. O SUS suportará? Quem aí está disposto a ficar doente para tirar a prova dos nove?

    Voltando para a educação.

    Este período sem aulas só confirmou o que já se sabia. A educação pública está sucateada. E não se trata de financiamento, porque dinheiro TEM. Quando falo de sucateamento, não me refiro à falta de dinheiro. Refiro, principalmente, à falta de uma política pública que defina rumos certos e sensatos. O sistema educacional brasileiro é burocrático.

    Vou dar exemplo do que está acontecendo nas escolas estaduais. Exige-se do professor e dos gestores o preenchimento de trocentos relatórios que devem ser impressos e arquivados (ou seja, uma rotina analógica). Foram feitos PET (uma espécie de apostila onde o estudante irá realizar algumas atividades) descontextualizados e, para dizer o mínimo, estranhos (o de história do segundo ano/médio então… nem quero falar!). Aí cada escola criou uma rotina e uma forma de trabalho. Ao final do mês os estudantes enviam fotos dos pets respondidos e é lançado no relatório. Muitos não estão fazendo, alguns fazem bem feito e outros nem tanto. E pronto. Fica por isso. Isso não é ensino à distância. Isso não é educação. Estão fazendo algo para dar uma satisfação à sociedade. E a mesma está aceitando.

    Os professores, mal remunerados, sucateados, sem formação para trabalhar no digital são, muitas vezes ridicularizados por não saberem usarem as TIC’s. Assim, o abismo entre as redes aumentam. Muitos dos profissionais em educação sequer tem como bancar uma rede de dados móvel ou fixa com estabilidade e capacidade de tráfego de dados. Além do mais, também são pais e mães com filhos nas escolas. Sem acesso à internet para o básico. Pronto. Aumenta-se o abismo.

    Os pais querem que as escolas voltem pois não aguentam mais ficar com as suas crias em casa. Esqueceram que são responsabilidade deles. Há muitos anos transferiram para a escola o papel de agente educador (por essas e por outras não gosto de ser chamado de educador). E agora, com a hiperconvivência, não sabe o que fazer. Querem que a escola volte não para que seus filhos aprendam… mas sim para terem paz! Que situação chegamos! Na verdade, não estão nem um pouco preocupados com os seus filhos, se serão contaminados, se irão levar o vírus para casa onde moram pais, avós, tios… ou, muito menos, se irá contaminar o professor e os demais servidores da escola… afinal, querem o que… apenas terem paz! Talvez a paz sepulcral é que irão receber.

    Enfim, o governador quando diz que vai abrir as escolas, está jogando pra galera. Não tem responsabilidade e sabe que isso não irá ocorrer. Sabe que as escolas que estão sob sua responsabilidade não tem como voltar. E se voltar, sabe que vai ter que lidar com o crescimento de contaminados e, certamente, os casos graves irão aumentar também… a famosa curva vai subir novamente. O retorno às aulas vai deixar as estranhas da educação pública exposta aos urubus de plantão.

    E deixo aqui uma pergunta: quem da sua família você está disposto a deixar morrer para que as aulas voltem?

    Escolas do Distrito Federal amanhecem vazias