A volta às aulas

Olá meus amigos, bão?!Para quem não sabe, eu também sou professor de História das Redes Públicas de Ensino de Contagem (sou professor de uma EJA – ensino fundamental I e II) e do Estado (onde leciono para os alunos do 6o, 7p. ano/Fundamental e para uma turma do 2o. ano/Médio. Já fui vice-diretor de uma escola do Estado, Diretor de Escola Municipal por 06 anos, coordenador da EJA por 2 anos. Já trabalhei em cursinho pré-vestibular (desde aqueles voltados para a elite até aqueles populares), em cursos preparatórios, em escola particular… Ou seja, já vivi de tudo um pouco dentro do ambiente escolar. E é baseado nessa experiência que vou deixar uma reflexão aqui.

Essa pandemia serviu para mostrar/escancarar uma coisa: como o ensino público é sucateado!

A volta às aulas, nas escolas públicas, é IMPOSSÍVEL agora! As escolas públicas NÃO TEM A MÍNIMA CONDIÇÃO de criar um ambiente MINIMAMENTE seguro. Falta tudo em uma escola pública: sabão, papel higiênico, ventilação, cadeiras, mesas, quadros, pinceis… falar em álcool em gel, em pias para se lavar, em torneiras funcionando e em bebedouros adaptados é algo, então, surreal.

As escolas particulares tem melhores condições, sem dúvida. Não tenho a menor dúvida de que eles tem TODAS as condições para o retorno das atividades presenciais. É claro que há o risco

Para mim, a grande questão que está em jogo não é se as escolas tem ou não capacidade para se retornar. Para mim, o que se está em jogo é essencialmente a POLÍTICA EDUCACIONAL adotada pelo ESTADO brasileiro. O retorno das aulas exporá as vísceras da educação pública. Será o carimbo definitivo do abismo que separa as redes pública e privada de educação.

Ao voltar, as diferenças sociais serão expostas de forma explícitas. É certo e sabido que haverá um crescimento da curva de contágios. E a pergunta que se faz é: onde serão tratados os doentes? Os contaminados da rede privada serão tratados na rede privada. O SUS suportará? Quem aí está disposto a ficar doente para tirar a prova dos nove?

Voltando para a educação.

Este período sem aulas só confirmou o que já se sabia. A educação pública está sucateada. E não se trata de financiamento, porque dinheiro TEM. Quando falo de sucateamento, não me refiro à falta de dinheiro. Refiro, principalmente, à falta de uma política pública que defina rumos certos e sensatos. O sistema educacional brasileiro é burocrático.

Vou dar exemplo do que está acontecendo nas escolas estaduais. Exige-se do professor e dos gestores o preenchimento de trocentos relatórios que devem ser impressos e arquivados (ou seja, uma rotina analógica). Foram feitos PET (uma espécie de apostila onde o estudante irá realizar algumas atividades) descontextualizados e, para dizer o mínimo, estranhos (o de história do segundo ano/médio então… nem quero falar!). Aí cada escola criou uma rotina e uma forma de trabalho. Ao final do mês os estudantes enviam fotos dos pets respondidos e é lançado no relatório. Muitos não estão fazendo, alguns fazem bem feito e outros nem tanto. E pronto. Fica por isso. Isso não é ensino à distância. Isso não é educação. Estão fazendo algo para dar uma satisfação à sociedade. E a mesma está aceitando.

Os professores, mal remunerados, sucateados, sem formação para trabalhar no digital são, muitas vezes ridicularizados por não saberem usarem as TIC’s. Assim, o abismo entre as redes aumentam. Muitos dos profissionais em educação sequer tem como bancar uma rede de dados móvel ou fixa com estabilidade e capacidade de tráfego de dados. Além do mais, também são pais e mães com filhos nas escolas. Sem acesso à internet para o básico. Pronto. Aumenta-se o abismo.

Os pais querem que as escolas voltem pois não aguentam mais ficar com as suas crias em casa. Esqueceram que são responsabilidade deles. Há muitos anos transferiram para a escola o papel de agente educador (por essas e por outras não gosto de ser chamado de educador). E agora, com a hiperconvivência, não sabe o que fazer. Querem que a escola volte não para que seus filhos aprendam… mas sim para terem paz! Que situação chegamos! Na verdade, não estão nem um pouco preocupados com os seus filhos, se serão contaminados, se irão levar o vírus para casa onde moram pais, avós, tios… ou, muito menos, se irá contaminar o professor e os demais servidores da escola… afinal, querem o que… apenas terem paz! Talvez a paz sepulcral é que irão receber.

Enfim, o governador quando diz que vai abrir as escolas, está jogando pra galera. Não tem responsabilidade e sabe que isso não irá ocorrer. Sabe que as escolas que estão sob sua responsabilidade não tem como voltar. E se voltar, sabe que vai ter que lidar com o crescimento de contaminados e, certamente, os casos graves irão aumentar também… a famosa curva vai subir novamente. O retorno às aulas vai deixar as estranhas da educação pública exposta aos urubus de plantão.

E deixo aqui uma pergunta: quem da sua família você está disposto a deixar morrer para que as aulas voltem?

Escolas do Distrito Federal amanhecem vazias

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