Obrigado, Lula.
Obrigado por dedicar mais de cinquenta anos da sua vida à luta pelos trabalhadores, pelos pobres, pelos esquecidos e por todos aqueles que, durante tanto tempo, sequer eram reconhecidos como sujeitos de direitos neste país.
Obrigado por acreditar em um sonho quando tantos diziam que ele era impossível. Por fazer desse sonho não apenas um projeto político, mas um propósito de vida. Por demonstrar que um operário, um retirante nordestino, um homem que conheceu a fome, a pobreza e as dificuldades da vida poderia chegar à Presidência da República e participar da transformação da História de seu país.
Obrigado por não escolher o descanso quando a idade e a própria trajetória já lhe permitiam uma vida tranquila, distante das disputas políticas, das ofensas e das perseguições. Aos 80 anos, depois de tudo o que enfrentou, o senhor poderia simplesmente estar em casa, desfrutando da família, dos filhos, dos netos e de uma velhice confortável.
Mas escolheu continuar.
Escolheu voltar à luta em um momento em que tantos de nós temíamos pelo futuro da democracia brasileira e pelo avanço do autoritarismo.
Obrigado por não desistir do Brasil, mesmo quando o próprio Brasil pareceu desistir de si mesmo.

Obrigado por compreender algo que parte das nossas elites jamais aceitou verdadeiramente: que o orçamento público também pertence aos pobres. Que o dinheiro do Estado deve servir àqueles que mais precisam, e não apenas à preservação dos privilégios de quem sempre teve tudo.
Obrigado por contribuir para que a fome deixasse de ser tratada como uma fatalidade e passasse a ser enfrentada como uma questão de responsabilidade política e justiça social.
Obrigado por ajudar a transformar a vida de milhões de brasileiros que puderam conquistar a casa própria, ter acesso à universidade, comprar seus medicamentos, viajar de avião, alimentar melhor seus filhos e descobrir que também tinham o direito de sonhar.
Obrigado por acreditar que o filho do pedreiro poderia se tornar médico, que a filha da empregada doméstica poderia ser engenheira e que um jovem da periferia poderia conquistar um diploma universitário.
Obrigado pela criação e expansão das universidades federais, pela interiorização do ensino superior e pela abertura de oportunidades para uma geração de jovens que, antes, dificilmente conseguiria chegar à universidade.
Obrigado por reconhecer a importância da ciência, da tecnologia, da educação, da pesquisa e da saúde pública. Por defender a ideia de que uma nação verdadeiramente soberana precisa produzir conhecimento, desenvolver sua própria tecnologia e investir na inteligência de seu povo.
Obrigado por mostrar que o Brasil pode ser respeitado internacionalmente não apenas por suas riquezas naturais, mas também por sua capacidade de dialogar, negociar e participar das grandes decisões mundiais.
Para mim, Lula, o senhor é o maior estadista que este país já produziu.
Sei que essa é uma avaliação pessoal. Outros poderão discordar. Mas é assim que compreendo sua importância na História brasileira.
E não é apenas pelo que fez como presidente.
É também pelo que representa.

Obrigado por ter enfrentado a prisão, a humilhação pública, a exposição de sua família e a tentativa de destruir sua trajetória política. Por ter persistido até ver reconhecidos pelo Supremo Tribunal Federal vícios fundamentais nos processos que resultaram em suas condenações.
Obrigado por não permitir que aquelas experiências encerrassem sua participação na vida pública.
Sei que o senhor cometeu erros. Sei que tomou decisões equivocadas, fez alianças questionáveis e, em determinados momentos, contrariou expectativas e esperanças de quem sempre esteve ao seu lado.
Não preciso negar suas contradições para reconhecer sua grandeza.
Não preciso transformá-lo em santo, herói infalível ou homem acima de qualquer crítica.
A minha admiração não nasce da crença de que o senhor nunca errou. Nasce da convicção de que, apesar dos erros, sua trajetória representa uma contribuição extraordinária para a construção de um Brasil menos desigual.

Mas há algo que preciso lhe dizer, Lula.
Algo que nenhuma análise política, nenhum livro de História e nenhum balanço dos seus governos será capaz de expressar inteiramente.
O senhor faz parte da minha história.
E não digo isso apenas como cidadão, eleitor ou professor de História.
Digo como alguém que, ainda menino, começou a compreender o mundo olhando para as lutas dos trabalhadores e acreditando que a realidade poderia ser diferente.
Minha história com o senhor começou muito antes de sua chegada à Presidência da República.
Em 1989, eu tinha apenas 14 anos.
Quatorze anos, Lula!
Eu nem sequer tinha idade para votar.
Mas já tinha idade para sonhar.
E sonhava.
Naquele ano, fui a todos os seus comícios em Belo Horizonte. Era apenas um adolescente no meio da multidão. Um garoto que talvez ainda não compreendesse todas as complexidades da política, da economia ou das profundas contradições da sociedade brasileira.
Mas já compreendia algo que nunca mais me abandonaria: que a pobreza não era um destino inevitável, que a desigualdade não precisava ser aceita como natural e que os trabalhadores tinham o direito de lutar por uma vida melhor.
Eu estava lá, Lula.
Debaixo de chuva, no meio daquela multidão, cantando com uma esperança que somente a juventude consegue carregar com tanta intensidade:
“Com sol, com chuva, meu voto é no Lula!”
“Com chuva, com sol, é Lula e Bisol!”
Hoje, ao recordar aquelas cenas, meus olhos se enchem de lágrimas.
Porque aquele menino de 14 anos não estava apenas participando de um comício. Estava começando a construir sua própria consciência política. Estava descobrindo que a História não era feita somente por presidentes, generais, empresários e homens poderosos.
Estava aprendendo que a História também podia ser feita por operários, por trabalhadores, por pessoas comuns, por aqueles que se recusavam a aceitar a injustiça como destino.
Eu ainda não podia votar no senhor, Lula. Mas já caminhava com o senhor.

1993: quando a esperança se transformou em militância
Mas há um capítulo dessa história que preciso contar, Lula.
Em 1993, quatro anos depois daqueles primeiros comícios, minha vida tomou dois caminhos que acabariam se encontrando e que ajudariam a definir o homem que me tornei.
Naquele ano, ingressei no curso de História da PUC Minas. Também entrei para o Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Região.
Aquele adolescente de 14 anos, que em 1989 enfrentava a chuva para acompanhar seus comícios, começava a compreender que transformar a sociedade exigia muito mais do que sonhos e entusiasmo.
Exigia estudo, organização, participação e compromisso.
Na universidade, encontrei instrumentos para compreender historicamente as desigualdades, as relações de poder e as contradições da sociedade brasileira. No sindicato, descobri como essas mesmas contradições se manifestavam concretamente na vida dos trabalhadores.
Na universidade, eu estudava a História. No sindicato, aprendia que também poderia participar de sua construção.
Registros da minha trajetória sindical





Tive o privilégio de conviver com companheiros e companheiras que marcaram a história do movimento sindical mineiro e brasileiro.
Entre eles, Marília Campos, hoje senadora eleita por Minas Gerais, com quem compartilhei experiências naquele universo de organização e luta dos trabalhadores.
Mas havia muitos outros. Homens e mulheres que dedicaram parte significativa de suas vidas à defesa de direitos, à organização sindical e à construção democrática do país.
Foram pessoas fundamentais na minha formação política.
Com elas, aprendi a ouvir, a debater, a discordar, a reconhecer contradições e, sobretudo, a compreender melhor o mundo em que vivemos.
Minha militância também encontrou espaço na política partidária. Fui coordenador estadual da Juventude Socialista Brasileira e, representando a organização juvenil, integrei a direção estadual do Partido Socialista Brasileiro em Minas Gerais.
Eram tempos de formação, de descobertas, de debates intensos e de grandes expectativas sobre o futuro do Brasil.
Eu era jovem. Tinha muito a aprender. E aprendi enormemente com aqueles que vieram antes de mim.
Olhando para trás, percebo como essas experiências foram decisivas para minha formação intelectual, política e humana.
E havia algo que ligava todas elas àquele menino de 1989.
A sua trajetória, Lula.
O operário que havia enfrentado a ditadura, participado da organização dos trabalhadores e se tornado uma liderança nacional era uma das referências que me acompanhavam enquanto construía meu próprio caminho.
O que começara como admiração juvenil havia se transformado em participação concreta na vida política e sindical.
E foi justamente nesse ambiente que tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.
Participei de reuniões com o senhor em Belo Horizonte e em São Paulo, durante congressos da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Pense no significado que isso tinha para mim.
O garoto que, aos 14 anos, estava perdido no meio da multidão, cantando seu nome debaixo de chuva, agora se encontrava diante do homem cuja trajetória tanto havia influenciado sua formação política.
Talvez o senhor não se lembre de mim.
É natural. Foram milhares de pessoas, centenas de encontros, décadas de caminhada.
Mas eu me lembro, Lula. E como me lembro!
Guardo essas experiências como parte de uma história pessoal que começou muito antes de eu compreender plenamente a dimensão da política.
Hoje, passadas mais de três décadas desde aquele 1993, percebo que não foi apenas uma carreira acadêmica, sindical ou partidária que comecei a construir.
Foi também uma maneira de compreender o mundo e meu próprio lugar nele.
E há algo que me emociona profundamente ao recordar tudo isso.
A vida passou. As organizações mudaram. Os tempos políticos se transformaram. Vieram conquistas, derrotas, divergências e desilusões.
Mas, quando olho para o caminho percorrido, sinto orgulho de ter participado dessas experiências, de ter convivido com aquelas pessoas e de ter permanecido fiel às convicções que comecei a construir ainda na adolescência.
O menino de 1989, o estudante de História de 1993, o jovem socialista, o dirigente sindical e o professor que me tornei são capítulos de uma mesma história.
E sua trajetória, Lula, foi uma referência importante ao longo dessa caminhada.
E continuei caminhando.
Em 1994, estava novamente nos seus comícios.
Em 1998, mais uma vez.
Em 2002, lá estava eu novamente.
A vida já havia mudado. Eu não era mais aquele adolescente de 14 anos. Havia crescido, amadurecido, conhecido melhor as contradições da política e compreendido que transformar um país era muito mais difícil do que os sonhos da juventude poderiam imaginar.
Mas uma coisa permanecia.
A esperança.
E então veio 2002.
Ah, Lula, como esquecer 2002?
Depois de tantas campanhas, de tantas derrotas, de tantos anos esperando, finalmente o Brasil havia elegido um operário para a Presidência da República.
Naquela noite, fui para a Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, comemorar sua vitória.
E não era apenas a vitória de um candidato.
Era a vitória de uma esperança que eu carregava desde os 14 anos.
Era como se, naquele momento, todos os comícios de 1989, 1994, 1998 e 2002 se encontrassem em uma única lembrança.
O menino que cantava debaixo de chuva finalmente via aquele sonho se realizar.
Imagino hoje o significado daquele momento para tantas pessoas que haviam passado a vida acreditando que um trabalhador jamais poderia ocupar o cargo mais importante da República.
Naquela noite, Lula, eu não comemorava apenas a sua vitória. Comemorava a vitória de uma parte da minha própria história.

Os anos passaram.
Aquele menino de 14 anos se tornou adulto. Foi dirigente sindical. Enfrentou suas próprias lutas, conheceu vitórias e derrotas, viveu alegrias, frustrações e decepções.
Tornou-se professor de História.
E passei a dedicar minha vida a ensinar aos jovens como as sociedades se transformam, como os direitos são conquistados, como o poder se organiza e como a luta dos trabalhadores participa da construção da História.
Que ironia bonita a vida me reservou.
Eu, que aos 14 anos estava nas ruas participando de comícios, tornei-me professor da disciplina que procura compreender justamente os processos dos quais participei.
Passei a vida ensinando História, mas também tive o privilégio de viver um dos capítulos mais importantes da História política do Brasil contemporâneo.
E hoje, aos 51 anos, olho para trás e percebo que minha trajetória pessoal também pode ser contada através das suas campanhas, das suas derrotas, das suas vitórias e das esperanças que elas despertaram em mim.
1989. 1994. 1998. 2002.
São muito mais do que datas eleitorais.
São marcos da minha própria vida.
Lembro-me do adolescente, do jovem, do militante sindical, do homem que amadurecia, do professor que viria a me tornar.
E, em todas essas fases, sua trajetória esteve presente de alguma maneira.
Eu envelheci acompanhando a sua história, Lula.
E hoje, quando olho para o senhor, também vejo a passagem do tempo sobre mim.
Vejo o menino de 1989, que já não existe da mesma maneira, mas que continua vivendo em algum lugar dentro de mim.
Aquele garoto que acreditava que um país mais justo era possível.
Aquele garoto que não podia votar, mas já sabia por que estava ali.
Aquele garoto que enfrentava a chuva para participar de um sonho coletivo.
E me pergunto o que ele diria se pudesse me encontrar hoje.
Talvez se surpreendesse ao descobrir que um dia aquele operário seria presidente da República. Que governaria o Brasil por tantos anos. Que enfrentaria a prisão. Que retornaria à Presidência. Que tantas transformações aconteceriam e que tantas outras ainda estariam por acontecer.
Talvez ficasse triste ao descobrir que, mesmo depois de tantas décadas, ainda teríamos de enfrentar a fome, a desigualdade, o racismo, a violência, a intolerância e o desprezo pelos pobres.
Mas acredito que ele ficaria feliz ao perceber uma coisa.
Apesar de tudo, eu não deixei de acreditar no que ele acreditava.

A vida me ensinou a ser mais crítico. A compreender as contradições dos governos, dos partidos e das lideranças. A reconhecer que nenhum homem, por mais importante que seja, pode representar sozinho todas as esperanças de um povo.
Mas não me fez abandonar aquilo que considero essencial.
Continuo acreditando que a dignidade humana não pode ser privilégio de classe.
Continuo acreditando que os trabalhadores merecem respeito.
Continuo acreditando que os pobres não são um problema a ser escondido, mas cidadãos que têm o direito de participar plenamente da riqueza que ajudam a produzir.
Continuo acreditando que o conhecimento, a educação e a ciência podem transformar vidas.
E continuo acreditando que a política pode ser um instrumento de transformação social, mesmo quando tantas vezes nos decepciona.
Hoje, 25 de outubro de 2026, escrevo estas palavras tomado por uma mistura de gratidão, tristeza, indignação e emoção.
Confesso que me dói profundamente perceber que tantos brasileiros estejam dispostos a apoiar um projeto político que considero tão distante dos valores de solidariedade, justiça social e respeito à democracia que sempre defendi.
Dói perceber que denúncias graves, suspeitas de corrupção e relações políticas questionáveis possam ser relativizadas em nome de uma identificação partidária.
Dói pensar que uma parcela expressiva da sociedade brasileira talvez não reconheça a importância das transformações sociais promovidas ao longo de seus governos.
Em momentos de indignação, chego a pensar que o Brasil não está à sua altura. Que uma sociedade capaz de desprezar tantas conquistas talvez não saiba reconhecer o valor de quem dedicou a vida à defesa dos trabalhadores e dos mais pobres.
Mas sei que o Brasil é maior do que suas escolhas eleitorais.
E sei também que milhões de brasileiros continuam lutando, resistindo, trabalhando, ensinando, pesquisando e acreditando em uma sociedade mais justa.
São essas pessoas que me fazem continuar acreditando.
Não sei como a História julgará todos os aspectos de seus governos. Como historiador, sei que seu legado será objeto de análises, críticas e interpretações diferentes.
A História não existe para confirmar nossas paixões ou transformar nossos personagens preferidos em seres infalíveis.
Mas há algo que nenhum historiador poderá fazer por mim.
Nenhum historiador poderá contar o que significou, para aquele menino de 14 anos, estar nos comícios de 1989.
Nenhum livro poderá reproduzir exatamente o que senti naquela noite de 2002, na Avenida Afonso Pena, comemorando a eleição de um operário.
Nenhuma pesquisa será capaz de recuperar inteiramente o que significou, para mim, participar de reuniões com o senhor quando fui dirigente sindical.
Essas são as minhas memórias.
São fragmentos da minha vida.
E são parte de uma história que carrego comigo há quase quatro décadas.
Eu não estarei nos livros de História, Lula.
Meu nome não será lembrado pelas gerações futuras. Minha passagem por este mundo será, como a de milhões de brasileiros, discreta e anônima.
Mas o seu nome estará lá.
Estará nos livros, nas pesquisas, nas universidades, nos debates e na memória de uma época.
E, quando as próximas gerações estudarem esse período, talvez não saibam que existiu um professor de História chamado Juliano Marques.
Não saberão que, em 1989, aos 14 anos, ele enfrentava a chuva para cantar seu nome.
Não saberão que ele foi aos seus comícios em 1994, 1998 e 2002.
Não saberão que ele participou de reuniões com o senhor em Belo Horizonte e em São Paulo, durante congressos da CUT.
Não saberão que esteve na Avenida Afonso Pena comemorando sua primeira vitória presidencial.
Talvez jamais saibam que esse professor envelheceu carregando consigo a lembrança de um sonho que começou quando ainda era menino.
Mas eu saberei.
Eu estava lá.
Eu vi sua trajetória. Acompanhei suas derrotas. Celebrei suas vitórias. Discordei de algumas decisões. Sofri com as injustiças que percebi ao longo do caminho. E, apesar das contradições, nunca deixei de reconhecer a importância histórica daquilo que o senhor representa.
Eu vivi o tempo de Lula.
Eu caminhei com Lula.
E ninguém poderá tirar isso da minha história.
Agradeço a Deus por ter vivido na mesma época que o senhor.
Por ter acompanhado sua caminhada desde aqueles comícios de 1989. Por ter visto um trabalhador chegar à Presidência da República. Por ter testemunhado mudanças que, na minha juventude, pareciam tão distantes.
Por ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em congressos da CUT, em Belo Horizonte e São Paulo, e de transformar parte da inspiração que recebi de sua trajetória em militância pelos direitos dos trabalhadores.
Por ter vivido o suficiente para perceber que alguns sonhos podem, sim, transformar a realidade.
Obrigado, Lula, por me ajudar a acreditar que a História não está condenada a ser apenas a repetição dos privilégios dos poderosos.
Obrigado por representar, para mim e para tantos outros, a possibilidade de que os trabalhadores, os pobres, os negros, os excluídos e os filhos daqueles que nunca tiveram oportunidades também possam ser protagonistas de sua própria história.
Não sei o que acontecerá depois deste dia.
Mas sei que nenhuma eleição será capaz de apagar aquilo que já foi vivido, construído e conquistado.
Governos passam. Presidentes deixam seus cargos. Os tempos políticos mudam.
Mas certas experiências permanecem.
E algumas trajetórias ajudam a transformar, para sempre, a maneira como um povo compreende suas próprias possibilidades.
Hoje, olhando para trás, não vejo apenas um presidente.
Vejo o operário que ousou sonhar. Vejo o dirigente sindical que enfrentou a ditadura. Vejo o candidato que perdeu eleições, mas continuou tentando. Vejo o presidente que contribuiu para abrir portas que, durante gerações, estiveram fechadas para milhões de brasileiros.
E vejo também aquele jovem que eu fui, encharcado pela chuva de 1989, cantando e acreditando que um outro Brasil era possível.
Aquele jovem ainda vive dentro de mim.
Está mais velho, mais cansado, mais consciente das contradições da política e talvez menos ingênuo.
Mas continua acreditando.
Há ainda algo que me emociona profundamente e que preciso registrar.
Hoje, 25 de outubro de 2026, talvez eu tenha votado em Lula pela última vez.
Só de escrever essas palavras, sinto o peso dos anos que passaram.
Penso naquele menino de 14 anos, nos comícios de 1989, que ainda não podia votar, mas já participava da vida política de seu país. Penso nas campanhas seguintes, nos congressos da CUT em Belo Horizonte e São Paulo, na alegria daquela noite de 2002, na Avenida Afonso Pena.
É difícil compreender que uma caminhada tão longa possa chegar a um momento como este. É como olhar para trás e encontrar o adolescente de 1989 e o homem de 2026 frente a frente, separados por décadas, mas unidos pelas mesmas lembranças.
E há algo que quero dizer sem hesitação: sinto um imenso orgulho de ter estado ao seu lado ao longo dessa caminhada.
Nos comícios, nas derrotas, nas vitórias e também nos dias difíceis. Mesmo quando discordei de decisões e reconheci erros, não precisei esconder minha história nem renunciar às convicções que me trouxeram até aqui.
Tenho orgulho de ter participado dessas lutas e de, segundo a minha consciência, ter procurado estar do lado certo da História. Não digo isso como alguém que pretende dar a última palavra sobre o passado, nem como quem se considera incapaz de errar. Digo como alguém que escolheu, com as limitações próprias de qualquer pessoa, dedicar suas esperanças à dignidade dos trabalhadores e a um Brasil com menos injustiças.
Talvez este tenha sido meu último voto no senhor, Lula. E essa possibilidade me comove de uma maneira que eu não esperava.
Mas, se o tempo está encerrando um ciclo, há algo que ele não consegue levar: o orgulho de ter feito essa caminhada, de ter vivido essas experiências e de reconhecer nelas uma parte de quem eu sou.
Talvez hoje tenha sido meu último voto em Lula. Mas não será o último dia em que carregarei comigo as lembranças dessa história.
O menino de 1989 ainda está aqui. O estudante de 1993, o jovem socialista, o dirigente sindical e o professor de História ainda caminham juntos dentro de mim.
E todos eles têm orgulho do caminho percorrido.
Por isso, Lula, independentemente do que aconteça, quero deixar registrado o meu agradecimento.
Não como alguém que espera favores. Não como alguém incapaz de reconhecer erros. Não como alguém que transforma um homem em objeto de devoção.
Mas como um brasileiro que reconhece, em sua trajetória, uma parte significativa de sua própria história e de suas esperanças.
Um brasileiro que teve o privilégio de viver o seu tempo.
E, se algum dia meus filhos, meus alunos ou as gerações que vierem depois de mim quiserem saber o que significou viver nesta época, espero poder dizer, com a mesma emoção que sinto agora:
Eu tinha 14 anos quando comecei a acompanhar Lula.
Não podia votar, mas já acreditava.
Eu estava nas ruas em 1989.
Continuei nas ruas em 1994, 1998 e 2002.
Fui dirigente sindical e tive a oportunidade de conhecê-lo em congressos da CUT.
Vi um operário chegar à Presidência da República.
E nunca me esqueci daquele menino que fui.
Eu vivi o tempo de Lula.
Eu caminhei com Lula.
E, quando minha própria caminhada chegar ao fim, levarei comigo a lembrança de ter participado, ainda que anonimamente, dessa história.
Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas que a vida me proporcionou: chegar a esta idade e descobrir que, apesar das perdas, das desilusões e das marcas que o tempo deixou, aquele menino de 14 anos ainda tem motivos para se orgulhar daquilo em que acreditou.
E, se eu pudesse voltar a 1989, encontrar aquele garoto no meio da multidão, encharcado pela chuva, e dizer-lhe alguma coisa, talvez não lhe contasse sobre as vitórias, as derrotas ou os acontecimentos que ainda estariam por vir.
Talvez apenas colocasse a mão em seu ombro e dissesse:
“Continue, menino. Continue acreditando. A caminhada será longa, nem sempre será fácil, e haverá dias em que você pensará em desistir. Mas um dia, quando olhar para trás, perceberá que valeu a pena ter acreditado.”
E então, olhando novamente para o senhor, Lula, eu diria:
Obrigado por ter feito parte da minha vida.
Obrigado por ter sido uma inspiração para aquele menino.
Obrigado por ter sido uma referência para o militante sindical.
Obrigado por ter sido parte da História que o professor que me tornei hoje procura compreender e ensinar.
Obrigado por tudo o que fez. Por tudo o que representou. E, sobretudo, por ter nos ajudado a acreditar que o Brasil poderia ser diferente.
Enfim, obrigado, Lula!
Juliano Marques
25 de outubro de 2026


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