25 de outubro de 2026 — Um desabafo sobre o Brasil

Hoje é um daqueles dias que entram para a História de um país. Um dia em que milhões de brasileiros, livre e democraticamente, vão às urnas decidir não apenas quem governará o Brasil nos próximos anos, mas também que projeto de sociedade desejam para si e para as próximas gerações.

Registro de ato político com público fotografando uma liderança ao microfone
Imagem: Instagram (fonte informada pelo autor; crédito fotográfico não identificado).

De um lado, um homem de 80 anos, que dedicou praticamente toda a sua vida à defesa dos trabalhadores, dos pobres e daqueles que, durante séculos, foram tratados como se não tivessem voz, direitos ou sequer existência. Um homem que, apesar de suas contradições e de todos os erros que possa ter cometido, conquistou reconhecimento internacional e é respeitado por importantes lideranças mundiais.

Do outro, um herdeiro de uma família que fez da política sua profissão e do Estado uma fonte permanente de poder e privilégios. Alguém cuja trajetória é marcada por denúncias, suspeitas e questionamentos que, em qualquer sociedade verdadeiramente comprometida com a ética pública, deveriam, no mínimo, provocar profunda reflexão.

Mas, para mim, o que está em jogo nesta eleição vai muito além da biografia dos dois candidatos.

O que mais me angustia é perceber que esta eleição também revela algo sobre o caráter da sociedade brasileira.

Sempre acreditei que as escolhas políticas dizem muito sobre nós. Sei que nem todo voto representa uma identificação integral com o candidato. As pessoas votam por diferentes razões, inclusive por medo, ressentimento, interesses particulares ou desinformação. Mas também acredito que, ao escolhermos alguém, revelamos aquilo que estamos dispostos a aceitar, tolerar, relativizar ou simplesmente ignorar.

E é exatamente isso que me entristece.

Como compreender que milhões de brasileiros estejam dispostos a entregar a Presidência da República a alguém cuja trajetória é cercada por acusações de peculato, questionamentos sobre relações com milicianos e suspeitas envolvendo o uso do dinheiro público? Como aceitar que a mentira, o desprezo pelo conhecimento, a hostilidade contra minorias e a naturalização da violência política possam ser tratados como questões secundárias?

Há ainda um projeto econômico que me preocupa profundamente, com a perspectiva de cortes de R$ 200 bilhões, enquanto o pagamento dos juros da dívida parece permanecer protegido. Já vimos, durante o governo de Jair Bolsonaro, o enfraquecimento de políticas públicas, os ataques à educação, as restrições ao financiamento científico e o desprezo pela universidade e pela pesquisa.

E, mesmo diante de tudo isso, milhões de brasileiros parecem dispostos a apostar novamente nesse caminho.

O que mais me incomoda não é simplesmente a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro. A democracia pressupõe o direito de escolher, inclusive de fazer escolhas das quais discordamos profundamente. O que me atormenta é a percepção de que valores que eu considerava fundamentais para a convivência humana — solidariedade, respeito, justiça social, honestidade, compromisso com a verdade — parecem ter se tornado negociáveis.

A verdade já não precisa ser verdadeira. Basta que confirme aquilo em que se deseja acreditar. A moral já não precisa ser coerente. Basta que seja exigida dos outros. A corrupção já não precisa ser condenada. Basta que seja praticada pelo adversário.

E então olho para as pessoas ao meu redor.

Penso na família que conquistou sua primeira casa graças ao Minha Casa, Minha Vida. Na pessoa que consegue comprar seus medicamentos por meio da Farmácia Popular. No estudante de escola pública que recebe o Pé-de-Meia e encontra nesse pequeno auxílio uma razão a mais para não abandonar os estudos. Nos jovens que, nos próximos dias, farão o Enem, carregando a esperança de ingressar em uma universidade pública ou de conquistar uma bolsa pelo ProUni ou um financiamento pelo Fies.

Penso em todas essas pessoas, nas dificuldades que enfrentam diariamente, nas portas que as políticas públicas ajudaram a abrir e nas oportunidades que, sem a presença do Estado, talvez jamais tivessem existido.

E penso também em algo que me revolta profundamente: o ressentimento de uma parcela das elites brasileiras diante da possibilidade de que os pobres deixem de ocupar os lugares que historicamente lhes foram reservados.

Porque, no fundo, acredito que parte da resistência às políticas de inclusão social nasce justamente daí.

O filho do pedreiro agora pode se tornar médico, advogado, professor universitário, doutor. A filha da empregada doméstica pode se formar engenheira, ocupar cargos de direção, conquistar espaços antes praticamente inacessíveis à sua família. O jovem da periferia pode entrar em uma universidade federal e sentar-se na mesma sala que os filhos daqueles que sempre tiveram tudo.

O pobre agora anda de avião. Viaja nas férias. Compra pacotes turísticos. Frequenta restaurantes, hotéis e espaços que, durante muito tempo, pareciam reservados a uma pequena parcela da população.

E isso incomoda.

Incomoda porque, para determinados setores da elite, a desigualdade nunca foi apenas uma questão econômica. Ela também funcionou como uma forma de distinção, de reconhecimento e de poder. O privilégio de alguns dependia, simbolicamente, da exclusão de muitos.

O que parece insuportável para essa parcela da elite não é simplesmente que o pobre tenha mais dinheiro. É que ele comece a ocupar espaços que antes eram tratados como propriedade natural dos privilegiados.

E não são apenas os pobres.

Penso na população negra, nos moradores das favelas, nos filhos e filhas de trabalhadores que estão conquistando o direito de sonhar com destinos diferentes daqueles que a estrutura social brasileira historicamente lhes impôs.

Penso na população LGBTQIAPN+, que luta pelo direito elementar de existir, de amar, de constituir família, de assumir publicamente sua identidade e de ser feliz. E que, mesmo depois de tantas conquistas, continua convivendo com o preconceito, a humilhação e a violência. Em um país onde pessoas trans ainda são assassinadas simplesmente por serem quem são, até mesmo o direito de existir continua sendo uma conquista permanentemente ameaçada.

Penso também nos praticantes das religiões de matrizes africanas, que ainda precisam lutar pelo direito de professar sua fé sem serem demonizados, perseguidos ou agredidos. Em um país cuja história foi construída também pelo trabalho, pela cultura e pela resistência dos povos africanos escravizados, é profundamente doloroso perceber que suas tradições religiosas continuem sendo tratadas, por alguns, como algo a ser combatido.

O Brasil está mudando. Lentamente, de forma desigual, contraditória e ainda profundamente injusta. Mas aqueles que sempre foram empurrados para as margens começaram a disputar o centro. E talvez seja justamente isso que tantos não conseguem aceitar.

Montagem de imagens de ato político no Rio de Janeiro com homens e uma corrente
Imagem: reprodução de vídeo de Raphaël Bernard, publicada em reportagem do g1, 25 out. 2026.

E me dói profundamente imaginar que muitas das pessoas beneficiadas por essas transformações possam votar em um projeto político que, na minha avaliação, ameaça justamente essas conquistas.

Não consigo compreender esse paradoxo.

Talvez algumas não percebam o que está em risco. Talvez outras acreditem sinceramente que nada disso será perdido. Talvez a identificação religiosa, o medo, os valores morais ou a rejeição a um partido tenham se tornado mais importantes do que as próprias condições materiais de existência.

Mas há uma possibilidade que me entristece ainda mais: a de que algumas pessoas saibam exatamente o que está em jogo e, mesmo assim, considerem aceitável que direitos sejam enfraquecidos, que desigualdades sejam aprofundadas e que oportunidades sejam retiradas de quem mais precisa.

E é nesse ponto que minha tristeza se mistura com uma indignação difícil de descrever.

Porque começo a me perguntar o que, afinal, estaremos dispostos a legitimar em nome de uma vitória eleitoral.

Vamos legitimar a violência contra negros, pobres e moradores das favelas?

Vamos continuar aceitando que a polícia entre nas comunidades como se aqueles territórios estivessem fora da Constituição, como se a pobreza fosse uma sentença de culpa e como se a vida de um jovem negro da periferia valesse menos do que a de um jovem branco dos bairros nobres?

Vamos naturalizar operações policiais que deixam corpos pelo caminho e tratar essas mortes como um preço inevitável da segurança pública?

Vamos legitimar a perseguição às religiões de matrizes africanas, enquanto proclamamos, com a maior naturalidade, que vivemos em um país de liberdade religiosa?

Vamos aceitar que pessoas sejam humilhadas, discriminadas e violentadas por sua orientação sexual ou identidade de gênero, como se a dignidade humana pudesse depender da autorização moral de uma maioria?

Vamos legitimar o preconceito, transformar a intolerância em virtude e apresentar a crueldade como demonstração de força?

Vamos relativizar acusações de corrupção e peculato porque envolvem políticos com os quais nos identificamos? Vamos exigir honestidade apenas daqueles que estão do outro lado?

Vamos exaltar a ignorância como se fosse uma qualidade sublime? Desprezar professores, cientistas, pesquisadores, universidades e intelectuais, como se o conhecimento fosse uma ameaça e não uma das maiores conquistas da humanidade?

Vamos legitimar a perseguição ideológica, o silenciamento de quem pensa diferente e a transformação dos adversários políticos em inimigos que precisam ser eliminados do debate público?

E há ainda uma questão que, como brasileiro, me angustia profundamente: a soberania nacional.

Vamos permitir que nossas riquezas naturais, nossos recursos estratégicos e nosso patrimônio público sejam colocados a serviço de interesses estrangeiros, sem considerar as necessidades do nosso próprio povo?

Vamos assistir à entrega daquilo que pertence à nação, para que outros se apropriem das riquezas, acumulem os lucros e nos deixem, mais uma vez, apenas os buracos, os territórios degradados e as consequências sociais e ambientais da exploração?

Será que vamos continuar reproduzindo, em pleno século XXI, uma lógica que acompanha nossa história desde a colonização: a de um país extraordinariamente rico, mas cuja riqueza tantas vezes foi apropriada por poucos, enquanto a maioria permaneceu condenada à privação?

De que adianta sermos uma nação independente se não conseguimos decidir soberanamente os destinos de nossas riquezas, de nossa economia e de nosso próprio desenvolvimento?

Sei que nem todo eleitor que faz determinada escolha concorda com todas essas práticas. Seria injusto afirmar isso. Mas também sei que nossas escolhas têm consequências, inclusive aquelas que preferimos não enxergar.

Um voto não é apenas uma manifestação de preferência. É também uma autorização para o exercício do poder.

E é justamente essa responsabilidade que me atormenta.

Não consigo deixar de pensar que há algo profundamente contraditório em uma sociedade na qual tantas pessoas dependem da solidariedade coletiva, mas são convencidas a rejeitar a própria ideia de solidariedade.

Hoje estou triste. Muito triste.

Não apenas por temer o resultado de uma eleição, mas por sentir que estamos perdendo algo muito maior: a capacidade de reconhecer no outro alguém tão digno de direitos, respeito e oportunidades quanto nós mesmos.

Não tenho a pretensão de ser dono da verdade. Sei que minhas próprias convicções também precisam ser constantemente questionadas. Mas há princípios dos quais não consigo abrir mão. Não consigo aceitar a indiferença diante da pobreza, a naturalização da desigualdade, o desprezo pelo conhecimento ou a transformação da fé em instrumento de intolerância e poder.

Talvez seja isso que mais me machuque: perceber que aquilo que, para mim, constitui o mínimo necessário para uma sociedade justa parece não ter a mesma importância para tanta gente.

No fundo, meu medo não é apenas que Lula perca uma eleição. Meu medo é descobrir que o Brasil com o qual sonho — um país mais justo, solidário, democrático, soberano e humano — esteja cada vez mais distante do Brasil que uma parte tão expressiva dos brasileiros deseja construir.

E talvez seja essa a tristeza mais difícil de suportar.

Porque uma eleição perdida pode ser recuperada quatro anos depois.

Mas e quando o que parece estar se perdendo é a própria capacidade de nos indignarmos diante da injustiça?

Termino este texto com lágrimas nos olhos.

São aproximadamente 14 horas deste domingo, 25 de outubro de 2026. A votação ainda está acontecendo, e a apuração dos votos só começará depois das 17 horas.

Ainda não sei o que as urnas revelarão. Não sei qual será o Brasil que encontrarei quando este dia terminar.

E talvez seja justamente essa incerteza que torne tudo tão doloroso. Porque, enquanto escrevo estas palavras, ainda existe esperança.

Espero, do fundo do coração, que tudo aquilo que temo e que registrei nestas páginas não se torne realidade.

Espero poder reler este desabafo amanhã e perceber que meus receios não se concretizaram. Que minhas lágrimas de hoje tenham sido apenas a expressão do medo de perder algo precioso, e não o lamento por uma perda consumada.

Quero continuar acreditando que ainda somos capazes de construir um país em que a dignidade humana não seja um privilégio, em que a justiça social não seja tratada como ameaça e em que ninguém precise aceitar a humilhação e a exclusão como destino.

Que as lágrimas que derramo enquanto escrevo estas últimas palavras não sejam de despedida do Brasil com o qual sonho.

Que sejam apenas lágrimas de quem, apesar de tudo, ainda não desistiu de acreditar nele.

Comentários

Deixe um comentário