Da teoria do campo religioso à produção de públicos
Os principais conceitos de Paula Montero (2016) e suas articulações com o projeto de pesquisa sobre guerra espiritual, pertencimento e agência
Introdução — O problema da religião na vida pública
Quando observamos a presença de igrejas, pastores e fiéis em debates políticos, manifestações, redes sociais e instituições, uma pergunta parece surgir naturalmente: por que a religião está ocupando espaços que, em princípio, deveriam pertencer à política ou à sociedade secular?
Essa pergunta, entretanto, contém um pressuposto que precisa ser examinado: a ideia de que a religião possui um lugar próprio, relativamente separado das demais dimensões da vida social, e de que sua participação pública constitui uma espécie de deslocamento para fora desse espaço.
É justamente esse pressuposto que Paula Montero problematiza no artigo “Religiões Públicas” ou religiões na esfera pública? Para uma crítica ao conceito de campo religioso de Pierre Bourdieu, publicado em 2016.
A autora parte de uma releitura crítica da teoria do campo religioso para demonstrar que a oposição entre religioso e secular, assim como a distinção entre público e privado, não pode ser tratada como uma divisão natural, fixa ou historicamente imutável.
Seu argumento central propõe uma mudança de perspectiva: em vez de compreender as religiões públicas simplesmente como instituições religiosas que passam a atuar fora de seus espaços tradicionais, devemos investigar como os próprios agentes religiosos participam da produção de públicos, arenas de debate, formas de visibilidade e definições daquilo que é considerado religioso.
Essa perspectiva apresenta possibilidades particularmente relevantes para o projeto Entre a guerra espiritual e o espaço público, cujo interesse central recai sobre as formas de autocompreensão, pertencimento e agência de fiéis de igrejas pentecostais autônomas de pequeno porte em Contagem (MG).
1. A religião como construção histórica e social
Uma primeira contribuição teórica importante diz respeito à própria definição de religião.
No senso comum, frequentemente pensamos a religião como um conjunto relativamente estável de doutrinas, crenças, rituais e instituições. Essa compreensão sugere que podemos identificar previamente o que é religioso e, depois, investigar como esse conjunto de elementos se relaciona com a sociedade.
A abordagem discutida por Montero permite questionar essa forma de proceder.
Em sua leitura de Pierre Bourdieu, a religião não constitui um objeto social completamente independente das relações históricas em que se encontra inserida. Aquilo que uma sociedade reconhece como religioso depende de processos de diferenciação, disputas pela autoridade e relações entre diferentes agentes.
Isso significa que a religião não deve ser compreendida como uma realidade isolada, cujas características permaneceriam idênticas ao longo do tempo.
As próprias distinções entre religião, medicina, psicologia e outras formas de interpretação da experiência humana são produzidas e transformadas historicamente.
Exemplo didático: em determinados contextos, o sofrimento de uma pessoa pode ser interpretado como problema espiritual, enfermidade corporal, conflito psicológico ou resultado de circunstâncias sociais. Essas interpretações não são necessariamente excludentes, mas podem envolver disputas entre diferentes agentes que reivindicam competência para compreender e enfrentar o problema.
O exemplo ajuda a perceber que a definição do religioso depende das relações sociais que estabelecem o que pode ser considerado um problema espiritual e quem possui legitimidade para interpretá-lo.
Montero recupera essa contribuição ao discutir a historicidade das fronteiras entre corpo e alma, religioso e secular (2016, p. 130-132).
Articulação com o projeto canônico
Essa perspectiva recomenda não começar a pesquisa definindo antecipadamente quais experiências dos fiéis pertencem ao domínio religioso e quais pertencem à política.
Uma pessoa pode interpretar dificuldades financeiras, conflitos familiares, violência no bairro ou problemas da sociedade utilizando categorias espirituais. A investigação precisa compreender como essa interpretação é construída e quais significados o próprio participante lhe atribui.
A pesquisa não deve presumir que toda interpretação espiritual de um problema social constitui uma posição política. Cabe examinar se os sujeitos estabelecem essa relação, em quais circunstâncias e com quais consequências.
2. Esfera religiosa e campo religioso: duas maneiras de compreender a religião
Uma distinção fundamental no artigo é aquela estabelecida entre os conceitos de esfera e campo.
Na reconstrução apresentada por Montero, o conceito de esfera religiosa, associado à sociologia de Max Weber, está relacionado aos processos históricos de racionalização e diferenciação das esferas de valor.
Na modernidade, diferentes dimensões da vida social desenvolvem critérios próprios de organização e legitimidade. A economia, a política, a ciência e a religião passam por processos de diferenciação, embora mantenham relações e tensões entre si.
O conceito de campo, desenvolvido por Bourdieu, desloca a análise para outro problema: as posições ocupadas pelos agentes, as relações de força existentes entre eles e as disputas pela definição legítima das práticas e dos bens simbólicos.
O campo religioso não é simplesmente um lugar reservado à religião. Trata-se de uma configuração histórica de relações na qual diferentes agentes disputam competências, autoridade e reconhecimento.
Essa mudança possui pelo menos três implicações importantes.
Primeiramente, os agentes religiosos não podem ser compreendidos isoladamente. Suas posições e práticas adquirem significado nas relações que mantêm com outros agentes.
Em segundo lugar, as doutrinas e mensagens religiosas não circulam independentemente das condições sociais de sua produção. Elas estão relacionadas às posições, aos interesses e às disputas existentes em determinados contextos.
Finalmente, o campo religioso mantém relações com outros campos. A diferenciação não significa isolamento absoluto.
Montero destaca que a abordagem de Bourdieu permite compreender a religião por meio de processos históricos e relações de poder, superando uma visão que a trataria como fenômeno empiricamente dado e autocontido (2016, p. 132-134).
Articulação com o projeto canônico
A teoria do campo pode ajudar a examinar as relações de autoridade existentes nas pequenas comunidades pentecostais.
Uma igreja institucionalmente autônoma pode possuir reduzido aparato administrativo, mas isso não significa ausência de relações de poder. O pastor, os dirigentes, os pregadores convidados e os próprios fiéis podem ocupar posições diferentes na produção, interpretação e circulação das mensagens religiosas.
Interessa compreender quem possui autoridade para definir o significado de guerra espiritual, quais interpretações são reconhecidas como legítimas e como os participantes se relacionam com essas definições.
Entretanto, a autoridade de uma liderança não deve ser confundida com adesão automática dos fiéis às suas interpretações. Essa distinção será particularmente importante para o exame da recepção e da agência.
3. A disputa pela definição legítima do religioso
Na interpretação de Montero, uma contribuição importante da crítica de Bourdieu à abordagem weberiana consiste em ampliar o objeto das disputas religiosas.
O problema deixa de ser exclusivamente o monopólio da administração dos bens de salvação. A disputa passa a envolver também a definição legítima do religioso e das diferentes maneiras de exercer atividades reconhecidas como religiosas.
Essa ampliação permite compreender por que agentes que não pertencem necessariamente às instituições religiosas podem disputar competências tradicionalmente associadas à religião.
O campo das práticas voltadas ao corpo, à saúde, ao sofrimento e à orientação moral oferece exemplos dessas transformações.
O importante não é apenas identificar quem produz determinada interpretação, mas compreender como certas interpretações conseguem adquirir legitimidade e orientar maneiras de perceber e agir no mundo.
Essa questão também evidencia uma dimensão política da teoria dos campos: a produção de significados envolve relações de força, reconhecimento e autoridade simbólica, ainda que essas relações não se confundam necessariamente com a política partidária ou estatal (MONTERO, 2016, p. 130-133).
Articulação com o projeto canônico
A guerra espiritual pode ser investigada como um repertório religioso cuja definição não precisa ser idêntica para todos os participantes.
Para um fiel, ela pode estar relacionada principalmente à oração e à proteção espiritual da família. Para outro, pode envolver o combate a forças malignas associadas a acontecimentos sociais. Um terceiro pode interpretá-la em termos de missão evangelizadora ou transformação moral.
Essas são possibilidades analíticas, não resultados constatados no campo.
O estudo deverá identificar quem formula essas interpretações, como são transmitidas, quais são reconhecidas pelos membros e em que medida orientam práticas concretas.
Isso permite estudar a guerra espiritual sem pressupor que exista uma interpretação única, estável ou compartilhada integralmente por todos os fiéis.
4. Os limites da teoria do campo religioso
Embora reconheça os avanços proporcionados por Bourdieu, Montero identifica limitações importantes em sua teoria.
Uma delas aparece quando o conceito de campo religioso é utilizado para interpretar transformações que tornam cada vez mais instáveis as fronteiras entre diferentes atividades sociais.
Se os agentes e as competências que definem o religioso mudam historicamente, como determinar antecipadamente onde começa e termina o campo religioso?
Essa questão se torna ainda mais complexa quando observamos práticas que conectam religião, política, assistência social, comunicação e outras dimensões da vida coletiva.
A autora considera que a teoria dos campos avança ao reconhecer essas relações, mas permanece insuficiente quando se trata de compreender os processos pelos quais as próprias fronteiras são constituídas, modificadas e negociadas.
Outro limite está relacionado à concepção de público.
Na leitura crítica de Montero, Bourdieu tende a associar o público ao poder estatal ou às estruturas de concorrência existentes entre os campos. Quando considera a recepção dos bens simbólicos, frequentemente privilegia as posições dos produtores e especialistas, enquanto os destinatários aparecem como consumidores ou adeptos.
O problema é que essa abordagem não oferece instrumentos suficientes para compreender como diferentes audiências se constituem e participam das situações públicas.
A crítica de Montero não significa que a teoria do campo religioso deva ser abandonada. Significa reconhecer que ela responde melhor a determinadas questões — autoridade, posições, relações de força e produção de legitimidade — do que a outras, como formação de públicos e dinâmicas de publicização (2016, p. 134-139, 141).
Articulação com o projeto canônico
Esse limite possui consequências diretas para uma pesquisa cujo foco está nos fiéis.
O estudo não pode se restringir à análise das doutrinas, das pregações e das relações institucionais de autoridade.
É necessário investigar como os participantes compreendem as mensagens que recebem, quais sentidos lhes atribuem e de que maneiras essas interpretações participam de sua autocompreensão e de suas práticas.
Os fiéis não devem aparecer apenas como destinatários de mensagens religiosas, mas como sujeitos cujas interpretações e ações precisam ser investigadas empiricamente.
Isso não significa pressupor que todos participem ativamente da construção dos repertórios religiosos ou que possuam igual capacidade de influência. A diversidade das posições e possibilidades de ação constitui, precisamente, uma questão de pesquisa.
5. Religiões públicas: da presença à produção do público
Chegamos ao deslocamento conceitual mais importante do artigo.
A expressão religiões públicas, discutida por Montero em diálogo crítico com José Casanova, frequentemente se refere à participação religiosa em arenas públicas e aos processos de desprivatização da religião.
Montero, entretanto, questiona o pressuposto de que a religião possa ser considerada uma realidade previamente constituída, situada originalmente no domínio privado, que posteriormente passa a atuar no espaço público.
A autora propõe investigar as religiões públicas a partir das dinâmicas de publicização.
Publicizar não significa apenas tornar alguma coisa visível. Trata-se de um processo social no qual determinadas questões, práticas e acontecimentos são apresentados, interpretados e disputados diante de diferentes audiências.
Nesse processo, os atores podem adquirir reconhecimento público, organizar formas de participação e contribuir para constituir as arenas em que suas demandas e interpretações passam a circular.
Por essa razão, o público não deve ser pensado exclusivamente como uma coletividade pronta, formada por pessoas que recebem mensagens produzidas por outros agentes.
Públicos podem se constituir e se reorganizar em torno de acontecimentos, controvérsias, performances, narrativas e práticas coletivas.
O espaço público, nessa perspectiva, não se reduz às instituições do Estado nem corresponde necessariamente a uma arena única, homogênea e previamente delimitada.
Sua configuração depende das ações e relações concretas que tornam determinadas questões objeto de atenção coletiva (MONTERO, 2016, p. 139-145).
É importante observar que publicidade, nesse debate, não significa simplesmente propaganda comercial. O conceito se refere à produção social de visibilidade, à circulação de questões e às condições de formação de públicos.
Um exemplo para compreender a publicização
Imaginemos, hipoteticamente, uma pequena comunidade pentecostal na qual alguns membros realizam reuniões de oração relacionadas a problemas de seu bairro.
Inicialmente, essas práticas podem permanecer restritas aos participantes da comunidade.
Em determinado momento, um integrante publica um vídeo no qual interpreta a violência local como parte de uma batalha espiritual e convida moradores a participar de uma campanha de oração.
A publicação começa a circular entre pessoas que não pertencem à igreja. Alguns concordam com a interpretação apresentada, outros a questionam e outros simplesmente assistem sem participar.
A questão analiticamente relevante não é apenas que uma prática religiosa ganhou visibilidade.
É necessário observar como o problema foi apresentado, quais pessoas foram interpeladas, quem respondeu à convocação, como se constituíram as audiências e se houve mudanças na maneira de interpretar coletivamente a situação.
A publicização pode produzir repercussões diversas, inclusive indiferença, contestação ou ausência de mobilização.
O exemplo ilustra uma possibilidade de aplicação do argumento de Montero, sem representar qualquer evidência sobre as igrejas que serão estudadas em Contagem.
6. A importância da agência e da recepção
A crítica de Montero à redução dos fiéis à posição de consumidores de bens religiosos oferece uma articulação com o tema da agência.
Em sua abordagem, compreender as religiões públicas exige observar as ações pelas quais os sujeitos produzem visibilidade, formulam problemas, organizam audiências e participam de controvérsias.
Essa perspectiva chama atenção para o fato de que as práticas públicas não podem ser deduzidas automaticamente de um sistema de crenças supostamente compartilhado por todos os integrantes de determinada religião.
Não basta afirmar que um grupo age de certa maneira porque seus membros acreditam em determinada doutrina.
É necessário examinar como os atores interpretam acontecimentos concretos, mobilizam repertórios disponíveis, formulam justificativas e se posicionam diante de situações específicas.
Montero ressalta, nesse sentido, que a análise das religiões públicas não pode ficar limitada ao conteúdo dos discursos. É preciso investigar as próprias dinâmicas da ação e da publicização (2016, p. 143-145).
Articulação com o projeto canônico
Essa discussão converge com a preocupação do projeto em compreender a autocompreensão, o pertencimento e a agência dos fiéis.
A pesquisa parte da possibilidade de que repertórios religiosos amplamente difundidos circulem também em comunidades institucionalmente autônomas de pequeno porte.
Entretanto, a circulação de uma mensagem não comprova sua recepção, e a recepção não implica necessariamente adesão integral ao significado atribuído por seus formuladores.
Os participantes podem selecionar, reinterpretar, combinar, tensionar ou recusar elementos desses repertórios.
A agência precisa ser examinada nessas condições concretas, sem ser reduzida à resistência, à liberdade individual absoluta ou à simples execução de orientações religiosas.
Nesse ponto, a contribuição de Montero é particularmente útil: a análise deve deslocar a atenção da suposta unidade das crenças para os processos situados pelos quais os sujeitos atribuem sentido às experiências e eventualmente participam de ações coletivas.
Contudo, é necessário preservar uma distinção: a teoria da publicização não equivale a uma teoria completa da agência individual. Ela contribui especialmente para investigar as relações entre ações, audiências, visibilidade e formação de públicos.
Sua articulação com a autocompreensão e a recepção dos fiéis constitui um desenvolvimento analítico a ser realizado pelo pesquisador, não uma conclusão que o artigo fornece diretamente.
7. A articulação com a gramática dominionista
O projeto canônico investiga em que medida determinadas formas de pertencimento e ação incorporam, ressignificam, tensionam ou recusam elementos de uma gramática dominionista.
A contribuição de Montero permite aperfeiçoar essa investigação ao introduzir uma questão complementar: como repertórios religiosos eventualmente associados à transformação da sociedade são mobilizados em situações que envolvem diferentes públicos?
É necessário, entretanto, evitar três equivalências inadequadas.
Primeiramente, a presença da guerra espiritual nas interpretações religiosas não constitui prova de dominionismo.
Em segundo lugar, a participação de fiéis em atividades públicas não demonstra, por si só, a existência de um projeto religioso de domínio político ou institucional.
Finalmente, a utilização de expressões relacionadas à conquista, transformação, governo, restauração ou Reino não é suficiente, isoladamente, para classificar determinada prática como dominionista.
Conforme estabelece o projeto canônico, a identificação de uma gramática dominionista depende da análise contextualizada e recorrente de articulações entre diferentes elementos, incluindo a espiritualização de conflitos sociais, a atribuição aos cristãos de responsabilidades pela transformação de espaços e instituições, concepções religiosamente orientadas da ordem social e formas de autolocalização dos sujeitos em missões de intervenção no mundo.
A contribuição específica de Montero está em permitir observar se, como e diante de quais públicos essas articulações são formuladas e mobilizadas.
É possível que determinada narrativa permaneça circunscrita à experiência devocional, sem repercussões públicas identificáveis. Também é possível que seja utilizada em campanhas religiosas, manifestações, ações comunitárias, discursos políticos ou controvérsias envolvendo instituições sociais.
Nenhuma dessas possibilidades deve ser presumida antes da investigação.
Além disso, a publicização de uma narrativa não demonstra necessariamente sua eficácia social ou política. Visibilidade, adesão, mobilização e transformação institucional são processos relacionados, mas empiricamente distintos.
A pesquisa deverá verificar essas relações quando houver evidências suficientes.
8. A contribuição metodológica para a pesquisa de campo
O estudo de Montero pode contribuir para aperfeiçoar os instrumentos de observação e análise já previstos no projeto canônico.
A pesquisa possui como unidade central de análise os fiéis de três igrejas pentecostais institucionalmente autônomas de pequeno porte em Contagem. Seu desenho prevê entrevistas semiestruturadas, observação e exame de materiais documentais e digitais.
A partir da discussão sobre publicização, torna-se possível incorporar perguntas voltadas não apenas ao conteúdo dos repertórios religiosos, mas também às situações em que são mobilizados.
O quadro seguinte apresenta uma proposta de articulação metodológica elaborada a partir do artigo, e não um instrumento diretamente formulado pela autora.
| Dimensão | Pergunta orientadora |
|---|---|
| Atores | Quem apresenta determinado problema como espiritual e quem participa da interpretação? |
| Repertórios | Que narrativas, metáforas e referências religiosas são mobilizadas? |
| Mediações | Como essas narrativas circulam entre lideranças, fiéis, mídias e outras comunidades? |
| Audiências | A quem a mensagem se dirige e quais respostas podem ser observadas? |
| Publicização | A questão ultrapassa as interações internas da comunidade? De que maneira? |
| Agência | Como os participantes compreendem sua responsabilidade e sua capacidade de ação? |
| Transformação social | Os sujeitos relacionam a experiência religiosa à mudança de pessoas, instituições ou situações coletivas? |
| Gramática dominionista | Há articulações recorrentes entre esses elementos que justifiquem essa classificação analítica? |
Essas dimensões podem orientar o registro de episódios observados, a leitura do corpus digital e a organização dos dados de entrevistas.
A observação deverá manter separados quatro níveis: as referências religiosas que circulam, as interpretações das lideranças, as práticas efetivamente observadas e a autocompreensão dos fiéis.
Divergências entre esses níveis não devem ser tratadas automaticamente como inconsistências. Elas podem constituir resultados relevantes sobre recepção, pertencimento e agência.
Também é importante reconhecer que entrevistas sobre crenças e experiências privadas não demonstram, por si mesmas, processos de publicização. Para identificar esses processos, será necessário examinar situações, interações, formas de visibilidade e audiências empiricamente reconhecíveis.
9. Potencialidades e limites dessa interlocução teórica
O artigo de Montero apresenta três contribuições particularmente relevantes ao projeto.
A primeira consiste em reforçar a necessidade de tratar o religioso como uma realidade histórica e relacional, evitando definições substancialistas que antecipem o significado das práticas dos participantes.
A segunda contribuição está na crítica à redução dos fiéis à condição de receptores passivos. Ela incentiva a investigação das interpretações e práticas dos sujeitos, embora não substitua uma teoria específica da agência.
A terceira, e mais original, é o deslocamento da atenção para os processos de publicização, permitindo compreender como determinadas ações religiosas participam da constituição de públicos e arenas de interlocução.
Há, entretanto, limites importantes.
O artigo constitui um ensaio teórico-conceitual. Não apresenta investigação empírica de igrejas pentecostais autônomas de pequeno porte, não examina sistematicamente a recepção de repertórios de guerra espiritual e não demonstra a circulação de gramáticas dominionistas.
A aplicação desses conceitos à pesquisa de Contagem constitui, portanto, uma inferência teórico-metodológica do pesquisador, que deverá ser testada e ajustada conforme as evidências do campo.
Também não seria adequado transformar toda ação religiosa em fenômeno de publicização. Experiências devocionais, práticas familiares e atividades comunitárias podem apresentar diferentes alcances e modalidades de visibilidade. É precisamente essa diversidade que a investigação precisa examinar.
Considerações finais — Da crença à ação situada
A principal contribuição do artigo de Paula Montero está na reformulação das perguntas que orientam o estudo da presença religiosa na sociedade.
A autora mostra que não basta considerar a religião como um conjunto de crenças ou instituições que, em determinadas circunstâncias, abandona um espaço privado para ocupar a esfera pública.
É necessário compreender historicamente a definição do religioso, as disputas pela legitimidade de suas interpretações e os processos pelos quais atores, questões e audiências se constituem nas práticas coletivas.
Para o projeto canônico, esse deslocamento é especialmente importante porque permite aproximar três problemas que não devem ser confundidos: a circulação de repertórios religiosos, a maneira como os fiéis os interpretam e as condições em que tais interpretações podem adquirir expressão pública.
A guerra espiritual poderá aparecer como linguagem de interpretação de experiências pessoais, como repertório de pertencimento comunitário ou como referência para formas mais amplas de atuação social. A extensão dessas relações, entretanto, depende das interpretações e práticas efetivamente encontradas.
Da mesma maneira, elementos de uma gramática dominionista somente poderão ser identificados mediante evidências recorrentes e contextualizadas, sem pressupor que a presença pública da religião implique necessariamente um projeto de domínio social.
A interlocução com Montero não altera o núcleo do problema canônico, centrado na autocompreensão, no pertencimento e na agência dos fiéis. Ela acrescenta uma perspectiva capaz de compreender como essas experiências podem ser articuladas a processos concretos de visibilidade, formação de públicos e participação na vida coletiva.
Assim, uma formulação sintética da contribuição teórica seria:
Para compreender as relações entre guerra espiritual e espaço público, não basta identificar os repertórios religiosos que circulam entre os fiéis. É necessário investigar como são interpretados, que formas de pertencimento e ação possibilitam e em quais circunstâncias são mobilizados diante de diferentes públicos, sem presumir previamente seu significado ou sua orientação política.
Essa formulação não representa uma hipótese nova nem uma conclusão empírica. Trata-se de uma síntese interpretativa que pode orientar a articulação entre o referencial teórico, os instrumentos de pesquisa e o futuro exame comparativo dos casos.
Referência bibliográfica
MONTERO, Paula. “Religiões públicas” ou religiões na esfera pública? Para uma crítica ao conceito de campo religioso de Pierre Bourdieu. Religião & Sociedade, Rio de Janeiro, v. 36, n. 1, p. 128–150, 2016. DOI: 10.1590/0100-85872016v36n1cap06.
Nota de rastreabilidade: as indicações de páginas ao longo deste texto remetem à edição impressa do artigo e localizam os argumentos discutidos. O desenvolvimento didático e as articulações com o projeto são paráfrases e interpretações analíticas, não transcrições literais da autora. A utilização de citações diretas exige conferência no PDF original.
Documento de referência da pesquisa: Entre a guerra espiritual e o espaço público — Pertencimento, agência e sentidos de transformação social entre fiéis de igrejas pentecostais autônomas de pequeno porte em Contagem (MG). Projeto canônico, versão de trabalho de 2026.

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