Ao responder esta pergunta, o historiador Marc Bloch afirmou que, ainda que a história fosse incapaz de outros serviços, seria possível dizer que ela distrai um grande número de homens, pois oferece prazeres estéticos que não se assemelham aos de nenhuma outra disciplina, satisfazendo a sensibilidade e a inteligência.
Para muitas pessoas a História se preocupa apenas com o passado. Ledo engano. Não nos interessa estudar o passado por si só. Para isso bastaríamos ir ao Museu, pois é lá que estão algumas das lembranças do nosso passado. O tempo passado por si só não tem importância. A História se preocupa com o presente e com o futuro. Mas para podermos compreender melhor o nosso presente e planejar o nosso futuro temos que estudar o nosso passado. Conhecer as raízes dos nossos problemas é uma das tarefas fundamentais para que possamos viver melhor o nosso presente e planejar o nosso futuro com os pés no chão. Por isso, podemos dizer que toda História é História do Presente.
Reconstruir tempos passados não é uma tarefa fácil, uma vez que, como vimos, não existem verdades absolutas na História, tudo é relativo, tudo são versões daquilo que já não existem. Em outras palavras, são perspectivas diferentes. Isso quer dizer que algumas versões são mentirosas? Não, pelo contrário. São apenas versões, e como tais devem ser respeitadas. Conhecer os argumentos dos que defendem tais versões são peças fundamentais para que possamos compreender melhor as formas pelas quais as mesmas são construídas. E é este o papel da disciplina História nos anos escolares. Ao professor de História, conhecedor de algumas das versões da História, compete proporcionar aos alunos os meios para que possam desenvolver um estudo crítico sobre os textos apresentados, insistindo sempre na afirmação de que o documento ali apresentado não é a verdade, e sim uma versão. A críticidade (capacidade de realizar uma crítica com argumentos) é o principal objetivo que almeja (deseja) o professor de História do 3º ano do 2º ciclo da Escola Municipal José Ovídio Guerra.
O ensino de História não deve se limitar a descrever simplesmente o passado. Por ser uma ciência – a ciência que estuda a ação do homem no tempo – História se preocupa com o presente. Recorreremos ao passado para responder as perguntas que a sociedade contemporânea (atual) tem sobre a sua existência. Ela deve-se preocupar com o conhecimento das sociedades do passado (como elas se organizavam, como elas produziam e como elas pensavam) para que possamos compreender e transformar a sociedade do presente.
A História não é apenas o estudo do passado pelo culto ao passado, mas a elaboração de uma pesquisa e de um ensino engajados com o estabelecimento de um diálogo entre as gerações e com a busca de soluções e novos caminhos comprometidos com a transformação da sociedade.
Esta transformação está ligada ao desejo de vivermos em uma sociedade justa, na qual as pessoas possam exercer os seus direitos de cidadão. Uma sociedade mais humana, sem fome, sem violência, sem guerras, sem injustiças sociais e com felicidade, ou seja, uma sociedade inclusiva, onde todos possam viver uma decente e digna.
O Historiador (profissional da área de História) tem os seus métodos para a construção de suas versões. Para tanto, ele se utiliza da análise dos vários documentos deixados pelo homem no tempo. Alguns destes documentos têm como objetivo relatar a versão de alguma pessoa sobre determinado assunto para que fique registrado na memória e sirva, no futuro, para o estudo dos costumes, dos hábitos e das tradições de alguma família, comunidade, povo, sociedade e, até mesmo, civilizações. Exemplos disso são os diários pessoais, as atas de reuniões, os livros etc. Outros, por sua vez, não têm a preocupação de deixar registrado para um estudo futuro aquelas características daquela sociedade, estão somente preocupados em relatar – de acordo com os seus interesses de grupo ou de classe – o que está acontecendo naquele momento histórico – que para aquele povo daquela época é o seu presente. Assim temos os jornais, as revistas, as cartas, as pinturas, as pichações (sim, as pichações possuem um fator histórico muito importante. O que são as pinturas rupestres, senão pichações nos interiores das cavernas?). É isso que me permite afirmar que toda a história é história do presente.
A História é, talvez, a ciência mais perigosa que existe, uma vez que ela mexe com aquilo que é surpreendente e imprevisível: o ser humano. Todas as outras ciências são previsíveis: a água e o óleo não se misturam, se você partir um átomo terá uma explosão atômica, se você acrescentar duas unidades a outras duas unidades você sempre terá quatro unidades. Mas, e o ser humano? Ele é capaz de fazer coisas imprevisíveis. E a História, ao realizar a crítica do presente, tendo como exemplo as sociedades passadas, pode provocar explosões de fúrias coletivas nunca antes imaginadas. Mas, pode também, criar um sentimento de passividade jamais pensado. A História é o produto mais perigosos que a química do cérebro já elaborou, por isso, compreender a História é a tarefa mais difícil que existe.
Repito, a História é a ciência que estuda a ação do homem no tempo. E o nosso tempo de estudo é sempre o presente, na medida em que herdamos das sociedades e civilizações que, fisicamente, não existem mais, traços e valores fundamentais para a nossa vivência cotidiana. Dizer que a civilização egípcia é antiga, é passado é mentira. Deles herdamos várias características: a cobrança de impostos, por exemplo; dos romanos antigos herdamos o Latim (de onde saiu a língua portuguesa) a idéia de República e de cidadania; dos gregos herdamos a idéia de política, dos fenícios a técnica de navegação, dos sumérios o fogo e a roda, dos povos da Idade Média, o casamento nas Igrejas, o cristianismo, a idéia de demônio e de bruxaria, entre outros. Dos povos que viveram entre os séculos XVI e XVIII, herdamos a terra em que vivemos (a América), a busca do lucro fácil, a exploração do homem pelo homem para alcançar o lucro. Ou seja, o homem contemporâneo (nós) é filho da humanidade e de tudo o que ela produziu no tempo e no espaço. Compreender esta ação do homem no tempo é a tarefa primordial da História.
O objeto de estudo da História é, por natureza o Homem. Melhor: os homens. Mais do que o singular, favorável à abstração, convém a uma ciência da diversidade o plural, que é o modo gramatical da relatividade. Por detrás dos traços sensíveis da paisagem, dos utensílios ou das máquinas, por detrás dos documentos escritos aparentemente mais glaciais e das instituições aparentemente mais distanciadas dos que as elaboraram, são exatamente os homens que a História pretende apreender. Quem não o conseguir será, quando muito e na melhor das hipóteses, um servente da erudição. O bom historiador, esse, assemelha-se ao monstro da lenda. Onde farejar carne humana é que está a sua caça.
Compreender o Tempo Histórico, que é diferente do tempo do relógio, do tempo da natureza (primavera, outono, verão e inverno), do tempo geológico ou geográfico é uma das principais tarefas que os alunos do 3º ano do 2º ciclo têm pela frente. Não é uma das tarefas mais fáceis, mas temos que fazê-la.
Você já deve ter percebido que, quando uma aula está muito interessante ela passa rápido e, ao contrário, quando uma aula está chata e monótona ela demora a passar? Ora, o tempo das aulas é o mesmo: uma hora. Mas por que esta variação? Você já percebeu que quando você sai de férias e vai, por exemplo, para a praia, as suas férias parecem que duraram pouco, aí você se indaga: pôxa vida, parece que eu entrei de férias ontem… E quando você fica em casa as férias demoram a passar? O tempo das férias escolares são os mesmos para todos: um mês. Mas por que esta variação? Um outro exemplo: quando você está passando mal, morrendo de vontade de ir ao banheiro, mas o professor de História não deixa, não parece que a aula dura mais que o tempo previsto? Por que esta variação?
A resposta é simples: o tempo dos homens é diferente do tempo do relógio. O tempo do relógio marca as horas, os minutos, os segundos; o tempo do calendário marca os dias, os meses, os anos. O tempo dos homens marcam sensações, e essas sensações são chamadas de durações. Às vezes essas sensações são longas – o que chamamos de longa duração – e às vezes essas sensações são breves e curtas – o que chamamos de curta duração. Nesses tempos, encontraremos permanências e mudanças, semelhanças e diferenças. E é isto que eu quero dizer quando afirmo que “A História é a ciência que estuda a ação dos homens no tempo”, seja no tempo longo, seja no tempo curto.
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