A península Arábica é uma região inóspita, pouco favorável à sobrevivência humana, devido à predominância de desertos. Por volta de 600 d.C., era habitada por tribos nômades, os beduínos, que viviam do pastoreio, e por tribos que habitavam as cidades, como Medina, Taife e Meca, localizadas na estreita faixa fértil da região oeste. Caravanas de mercadores atravessavam o deserto levando no dorso de camelos especiarias, perfumes, metais preciosos, marfim, seda etc., vindos da Índia, Síria e África. Esses produtos eram comercializados nas grandes cidades.
Meca era a cidade mais próspera, além de importante centro religioso, pois ali estava a Caaba e um santuário com centenas de estátuas de deuses e deusas árabes. Cada tribo tinha seus ídolos, mas todas adoravam a principal divindade, Alhah, o criador do Universo, e veneravam a Pedra Negra, que os árabes consideram sagrada.
A partir de 613, Muhammad, um ex-caravaneiro, começou a fazer pregações dizendo-se inspirado pelo anjo Gabriel e enviado por Allah como profeta de uma nova religião: o Islam ou islamismo. Ele condenava o politeísmo árabe e anunciava a salvação eterna àqueles que obedecessem a Allah.
Os mercadores e autoridades de Meca, para os quais o culto aos ídolos era uma fonte de lucros, não aceitaram o monoteísmo de Muhammad passaram a perseguí-lo. Muhammad fugiu para Medina, “a cidade do profeta”, e ali fundou uma comunidade de fiéis (Ummah) da nova religião, os muçulmanos. Esse episódio, conhecido como Hégira, ocorreu em 622 e é o marco inicial do calendário muçulmano. Anos depois, em 630, Muhammad voltou a Meca, venceu seus inimigos e transformou a cidade no centro religioso do islamismo. Conservou a Caaba e a Pedra Negra, mas destruiu todos os ídolos. Com a morte de Maomé, em 632, o islamismo se difundiu pela Arábia, unindo as tribos em uma única fé e sob um único líder, o califa, sucessor do profeta.
Após sua morte, seus ensinamentos foram registrados em um livro sagrado, o Corão. O islamismo reúne princípios do judaísmo, do cristianismo e de uma religião persa antiga, o zoroastrismo. Reconhece cinco profetas importantes antes de Muhammad: Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus.
O IMPÉRIO ISLÂMICO
Muhammad ordenou aos seus seguidores que convertessem todos os povos ao islamismo. Prometia aos vitoriosos os bens dos vencidos e o paraíso àqueles que morressem combatendo pelo Islã. Os árabes muçulmanos obedeceram a Maomé e, no mesmo ano da morte do profeta, começaram o jihad, a guerra santa. Encontraram pela frente povos enfraquecidos e desunidos ou dispostos a acolher os invasores para se libertarem de um domínio ainda mais opressivo.
Os árabes dominaram extensas regiões do Império Bizantino, ocuparam o Império Persa, estenderam suas fronteiras até a Índia e parte da China. Tentaram submeter Constantinopla, mas foram duas vezes repelidos (em 678 e 718). Atravessaram o estreito de Gibraltar ocuparam a Península Ibérica. Planejaram invadir a região correspondente à França atual, mas foram derrotados na batalha de Poitiers (732). Em menos de um século os muçulmanos conquistaram grande parte do que havia sido o antigo Império Romano. Foi uma das expansões mais rápidas da História.
O poder político e religioso estava inicialmente concentrado tem uma única pessoa: o Califa. Ele exercia a justiça e administrava os negócios do governo imperial. Seu imenso palácio ficava na capital, inicialmente Medina, depois Damasco e mais tarde Bagdá. O Império Islâmico dividia-se em diversas províncias. Com o tempo, algumas delas tornaram-se independentes do califa, como foi o caso da província islâmica da Península Ibérica (Portugal e Espanha), em 756. Contudo, o espírito religioso e a língua mantiveram unidos os árabes de todo o império.
As cidades eram os principais centros da comunidade muçulmana. Algumas eram enormes para a época. Ali estavam as mesquitas, os palácios, as lojas (os bazares), os armazéns, as oficinas, os banhos públicos, as bibliotecas, as escolas e universidades. Ali chegavam caravanas e navios carregados de mercadorias da Índia, da China, da África e da Europa. No comércio, usavam-se moedas árabes (o dinar) e bizantinas.
A atividade rural também recebeu atenção do governo islâmico. Foram construídos aquedutos subterrâneos que levavam água até as plantações e aldeias. Os lavradores receberam instrução para preparar diferentes misturas de estrumes para cada cultivo. Plantas das regiões tropicais e subtropicais, como laranja, limão, cana-de-açúcar, algodão, romã e amendoim, foram introduzidas na Península Ibérica.
A ARTE A CULTURA ISLÂMICA
Uma das mais importantes contribuições dos árabes muçulmanos para o Ocidente foi a transmissão dos conhecimentos gregos antigos. Sábios árabes traduziram os grandes filósofos, como Aristóteles, os tratados de Medicina de Hipócrates e Galeno e de Geografia de Ptolomeu. Assimilaram também os conhecimentos dos bizantinos, persas, indianos e chineses, introduzindo na Europa algumas invenções desses povos, como a bússola, o astrolábio, o papel e, provavelmente, a pólvora.
Os árabes descobriram diversas substâncias químicas, como o álcool, o ácido sulfúrico, o alume, o salitre etc. Descreveram os processos químicos da destilação, filtração e sublimação. Fizeram importantes descobertas na Medicina, como a natureza contagiosa da tuberculose, a propagação de doenças pela contaminação da água e do solo, o diagnóstico da varíola e do sarampo e muitas outras. Seus hospitais eram famosos.
Na Matemática, difundiram o sistema decimal, os chamados algarismos arábicos e o sistema posicional de numeração, com um símbolo para o zero – elementos tomados dos indianos, que usamos até hoje. Essas inovações revolucionaram a matemática, pois permitiam escrever qualquer número e fazer cálculos complexos utilizando apenas dez algarismos.
Desenvolveram a álgebra, a trigonometria e a geometria com os cálculos de áreas e volumes. A partir da observação do céu e dos astros, que lhes serviam para se orientarem pelo deserto, deixaram importantes estudos sobre estrelas e constelações.
Construíram observatórios astronômicos em Bagdá, Damasco, Córdoba e Cairo. Calcularam com exatidão a circunferência e o diâmetro da Terra.
A Península Ibérica, chamada em árabe AI-Andalus, foi um importante centro difusor dos conhecimentos árabes para o restante da Europa. As peças de ferro, cerâmica, vidro, peles e marfim produzidas pelos mouros (como eram chamados os muçulmanos na Espanha) eram muito prestigiadas. Os reis europeus adquiriam com moedas de ouro objetos feitos pelos artesãos árabes, especialmente as famosas espadas de Toledo. Córdoba tornou-se, a partir do século X, a principal cidade do Ocidente.
Ali conviviam, com relativa tolerância, comunidades de cristãos, muçulmanos e judeus. A cidade possuía setenta bibliotecas, livrarias, escolas e uma universidade. Suas mesquitas e palácios, com magníficas fontes e jardins internos, eram as mais imponentes construções da Europa.
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